"Quem, se eu gritasse, me ouviria dentre as ordens dos anjos? e mesmo que um me apertasse de repente contra o coração: eu morreria da sua existência mais forte. Pois o belo não é senão o começo do terrível que nós podemos ainda suportar (...) E assim eu me reprimo e engulo o chamamento dum soluçar escuro. Ai! de quem poderíamos nós então valer-nos? Nem de anjos, nem de homens, e os bichos perspicazes repararam já que nós não estamos muito confiados em casa neste mundo explicado. Resta-nos talvez qualquer árvore na encosta, que de novo a vejamos diariamente; resta-nos a estrada de ontem e a fidelidade amimada de um costume, que gostou de estar connosco, e por isso ficou e se não foi. (...) Sim as primaveras precisavam de ti. Muitas estrelas esperavam de ti que as sentisses." Rilke, As Elegias de Duíno, trad. de Paulo Quintela
Este filme conta-nos a história de um Billy Elliot israelita chamado Chen, com a diferença que este último apenas se interessa pela dança por causa do amor que sente por uma jovem dançarina de origem russa. É um filme bem interessante que trata de temas bem diversos: a dança, naturalmente; a actual sociedade israelita e, em particular, a tensão com a comunidade russa judia; o amor antes da puberdade. O filme de Eitan Anner tem como título original Sipur Hatzi-Russi que significa, se não estou em erro, História Meio-Russa. Podem ver o trailer aqui:
Uma nova "moritat" ou "canção crime", Hoist the Colours (à inglesa) ou Hoist the Colors (à americana), composta pelo famoso músico alemão Hans Zimmer para o filme de Gore Verbinski, Os Piratas das Caraíbas: no fim do Mundo.
Quer ouvir uma canção que nunca mais lhe sai da cabeça? Então experimente escutar o tema Die Moritat von Mackie Messer, composta por Kurt Weil, com poema de Bertold Brecht. Esta canção insere-se na Ópera dos Três Vinténs (Die Dreigoschenoper, 1928) que, por sua vez, se baseia no Beggar's Opera de John Gray. "Moritat" significa literalmente "delito" (tat)"mortal" (mori) e é um género de baladas associado ao crime; por sua vez, Messer significa "faca" (daí que a canção ser conhecida nos países anglo-saxónicos por Mackie the Knife e nos de língua portuguesa por Mac Navalha). Para saber mais sobre esta canção, clique AQUI. Este tema musical é de tal modo célebre que já foi interpretado por nomes como Louis Armstrong, os Doors, Sting, Sinatra, Ella Fitzgerald, Nick Cave, os Slut, entre tantos outros; por seu lado, Chico Buarque compôs a Ópera do Malandro tendo como base esta obra de Weil e Brecht. Para terminar, deixo-vos aqui igualmente a interpretação dos Slut:
Excelente, excelente filme (nunca pensei está a fazer este elogio a Ben Affleck, mas apenas o conhecia como actor e não como realizador)! Gone Baby Gone (2007) - na versão portuguesa, "Vista pela Última Vez" - é uma história soberba que foi escrita por Dennis Lehane (o mesmo autor do livro Mystic River no qual Clint Eastwood se baseou para realizar um dos seus grandes filmes). O que é fabuloso no filme de Ben Affleck - filme interpretado, aliás, no papel principal pelo seu irmão Casey Affleck -, para lá da óptima realização, é a questão central que todos nós ficamos no fim do filme. Para não desvendar o final da história, apenas direi que está em jogo o velho conflito ético entre os princípios de "autonomia" e de "beneficiência". Pessoalmente compreendo perfeitamente a decisão de Patrick Kenzie (Casey Affleck), embora não me seja difícil entender os argumentos da sua namorada Angie Gennaro (Michelle Monaghan). O que mostra que em muitas questões éticas não basta ter bons argumentos. Mas se não temos argumentos o que é que afinal "temos" quando decidimos? Um grande filme sobre o que poderíamos designar, à falta de melhor termo, como a "ética da convicção".
"Hoje, há noventa e três anos, Viriginia Woolf tinha deixado de escrever o diário que começara nesse ano e encontrava-se deprimida, violenta, agressiva. No meio da sua depressão deixou de dormir e perguntava aos seus amigos como é que faziam à noite. Um deles, talvez o seu cunhado Clive Bell, disse-lhe que todas as noites lia meia dúzia de páginas de Tucídides, descrevendo batalhas ou escaramuças da guerra do Peleponeso. Depois fechava a luz e imaginava-as com todos os precisos detalhes, o cheiro da urze, o barulho das espadas, a pedra onde se sentou um guerreiro de Esparta olhando para o pôr-do-sol enquanto morria, as azeitonas comidas à sombra depois de uma batalha, o pó levantado pelos caminhos, o silêncio. Muitas destas coisas não vinham em Tucídides, inventava-as e permanecia centrado naquilo em que queria pensar e não naquilo em que pensava e não o deixava dormir. Quando não conseguia, voltava a Tucídides".
Dia histórico em função da decisão do Parlamento espanhol em conferir direitos humanos aos grandes símios. Participe no inquérito que o jornal Guardian está a realizar sobre este assunto. Vote AQUI.
Um dos auto-retratos mais estranhos na história da pintura. Caravaggio representa-se a si mesmo nesta cabeça degolada de Golias sob o olhar triunfador de David. É um facto que Caravaggio, o célebre pintor barroco, tinha a sua cabeça a prémio na cidade de Roma...
O blog Diz que não gosta de música clássica? tem vindo a publicar calmamente o ciclo de canções de Schubert, Winterreise (Viagem de Inverno). Uma das canções mais belas do Winterreise é "A Tília" (Der Lindenbaum). Trata-se de um dos poucos casos em que um tema musical clássico se tornou numa canção popular (Volkslied). O autor do blog em questão (Fernando Vasconcelos) não só apresenta uma tradução portuguesa do poema de Wilhelm Müller utilizado por Schubert, como faz referência a uma interpretação muito heterodoxa desta canção. Trata-se da versão da grande cantora grega Nana Mouskouri. É uma interpretação muito bela e original que, como alguém disse algures, apetece estar sempre a ouvir. Pode parecer um lugar-comum, mas ouve-se a "Alemanha" nesta canção. Mas ouve-se também a morte... Thomas Mann, na Montanha Mágica, mostra-nos, quase no final do romance, como a Tília sugere a Hans Cartorp a morte, para lá da sua beleza. Quando li essa passagem pensei apenas que o escritor mais uma vez sublinhava a relação central entre a cultura e a morte, um dos temas centrais do seu pensamento. Agora ao confrontar-me com os versos do poema - que reproduzo na tradução referida - percebo como A Tília é, no essencial, um Canto das Sereias que, como um sortilégio, nos parece convocar para a paz da morte nos momentos de maior aflição.
A Tília
Junto ao poço do portão ergue-se uma tília; quantos sonhos doces embalei à sua sombra. Em seu tronco gravei muitas palavras de amor; na dor e na alegria para ela sempre corri.
Hoje passei por ela no meio da noite profunda e mesmo na escuridão tive que fechar os olhos. E seus galhos sussurravam como se me chamassem: "Venha para cá, amigo, aqui encontrará a paz".
Os ventos frios sopravam na minha face, o chapéu voou-me da cabeça, mas não me voltei para trás. Agora estou a muitas horas de distância daquele lugar mas continuo a ouvir o sussurro: "Aqui você encontrará a paz !"
Der Lindenbaum
Am Brunnen vor dem Tore, Da steht ein Lindenbaum, Ich träumt' in seinem Schatten So manchen süßen Traum. Ich schnitt in seine Rinde So manches liebe Wort, Es zog in Freud' und Leide Zu ihm mich immer fort
Ich mußt' auch heute wandern Vorbei in tiefer Nacht Da hab' ich noch im Dunkel Die Augen zugemacht. Und seine Zweige rauschten, Als riefen sie mir zu: Komm her zu mir, Geselle Hier find'st du deine Ruh'!
Die kalten Winde bliesen Mir grad' ins Angesicht, Der Hut flog mir vom Kopfe, Ich wendete mich nicht. Nun bin ich manche Stunde Entfernt von diesem Ort, Und immer hör' ich's rauschen: Du fändest Ruhe dort!
Iniciou-se, finalmente, a tradução portuguesa de um dos clássicos da literatura mundial: O Romance de Genji (Genji Monogatari) da escritora japonesa do século XI, conhecida como Murasaki Shikibu ou Dama Murasaki. Esta história japonesa é considerada por muitos como o primeiro romance da história da literatura ou, pelo menos, como sendo o primeiro romance psicológico. Cito algumas das opiniões sobre esta narrativa, referidas na edição portuguesa: "um dos grandes clássicos" (W.B. Yeats); "nunca se escreveu nada de melhor, em nenhuma literatura" (Yourcenar); "depois de se ler Murasaki, nunca mais se sentirá de igual maneira o amor ou a paixão. Ela é o génio do desejo e nós os seus aprendizes" (Harold Bloom); "somente comparável aos grandes clássicos ocidentais como Cervantes ou Balzac" (Octavio Paz). A narrativa dos amores do príncipe Genji nunca tem fim nesta história, ficando a questão de saber se esta ausência de um fim narrativo foi ou não intencional. A edição portuguesa que, neste momento, apenas ainda contempla a chamada "Primeira Época" (33 capítulos) é da responsabilidade da Editora Êxodus/7 Dias e 6 Noites, sendo a tradução de Lígia Malheiro. A capa é um encanto e foi criada por Osamu Tatematsu.
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Esculturas do artista alemão Stephan Balkenhol (n.1957). A primeira fica situada em Hamburgo e as duas últimas estão no Neues Museum de Nürnberg (Nuremberga).