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sábado, 8 de novembro de 2008

Identidades confusas (4)



Constantemente encontramos a afirmação segunda a qual "identidade pessoal" e "identidade narrativa" são uma e a mesma coisa. Esta identificação explica-se, em grande parte, devido ao sucesso da palavra "narrativa" no léxico contemporâneo. Este termo é utilizado em todos os domínios, desde a neurobiologia até à economia.
Embora esta proliferação de "narrativas" tenha o seu quê de irónico - pela simples razão de que a chamada "condição pós-moderna" é, por definição, uma desconfiança em face do poder legitimador das "grandes narrativas", - esta tendência até poderia ser um bom sinal, ao traduzir a percepção da natureza temporal de todos os aspectos fundamentais da nossa vida. Receio, no entanto, que seja mais um dos inúmeros sound bites que hoje ecoam por todo o lado.
A "narrativa" como estereótipo é bem evidente na identificação apressada entre os conceitos de identidade pessoal e de identidade narrativa. Se olharmos com atenção para os dois filósofos que maior significado deram à função da narrativa na questão da identidade pessoal - a saber, o escocês Alasdair MacIntyre (um dos grandes teóricos da "ética das virtudes") e o francês Paul Ricoeur - em nenhum deles encontramos essa equivalência. Importa frisar que os dois autores defendem a importância da narrativa por razões bem diferentes. Neste post, procurarei mostrar a posição de MacIntyre.

Este autor está essencialmente interessado no poder que a narrativa confere à inteligibilidade da identidade pessoal. Em termos polémicos, quer demarcar-se da tese sartreana, expressa na Náusea, de que a narrativa é uma "falsificação" da vida. Segundo "Antoine Roquentin", o personagem central do romance de Sartre, nós estamos sempre a contar histórias sobre nós e os outros, mas isso não é mais do que uma auto-ilusão. "É preciso escolher: viver ou narrar", diz-nos Sartre nesta obra. MacIntyre rejeita esta ideia, ironizando com o facto do filósofo francês narrar no romance A Náusea a história de "Roquentin" para mostrar que não existem "histórias verdadeiras". Segundo MacIntyre, não é possível dar inteligibilidade a uma acção sem a inscrever num contexto narrativo. O exemplo do "pato histriónico", citado num post recente, traduz bem essa vertente; uma acção, por mais básica que seja, só é inteligível num quadro narrativo. Daí que as "narrativas não sejam obra de poetas, dramaturgos e romancistas reflectindo sobre eventos que só têm ordem narrativa através da forma que lhe é dada pelo bardo ou pelo escritor; a forma narrativa não é um disfarce ou uma decoração." (After Virtue) Pelo contrário, a narrativa é a própria forma como vivemos: sonhamos, acreditamos, desesperamos, aprendemos, odiamos, etc, pela nossa capacidade de dar inteligibilidade, i.e. de dar sentido narrativo aos múltiplos factos que vivemos. Os factos não são em si narrativos, mas ganham inteligibilidade numa determinada narrativa. Do mesmo modo, só conseguimos compreender uma sociedade, mesmo a nossa, através das suas narrativas fundadoras. "A Mitologia, no seu sentido original, está no coração das coisas. Vico tinha razão assim como Joyce."
MacIntyre reflecte, então, no poder que narrativa tem sobre a identidade pessoal. Segundo ele, não é a continuidade psicológica que permite legitimar a nossa identidade pessoal. Apenas a narrativa o consegue conferindo contexto e sentido à experiência que cada um tem de si próprio. Mas ele sublinha que "não est(á) a argumentar que os conceitos de narrativa ou de inteligibilidade são mais fundamentais do que o da identidade pessoal". O que ele argumenta é que a narrativa confere unidade e inteligibilidade à experiência singular que cada tem da sua própria vida. Em termos simples, pode-se dizer que, para este autor, a narrativa dá sentido à nossa singularidade como pessoas, à nossa identidade pessoal, ao sentimento de si. A minha vida singular não só tem uma história da qual sou, em parte responsável, como se entrecruza constantemente com as histórias da vida de outras pessoas singulares. Por sua vez, a vida pessoal inscreve-se no contexto de uma "narrativa de busca" (narrative quest). Mas busca de quê? O filósofo é claro em afirmar que o objecto da busca não é semelhante ao ouro dos mineiros. Para MacIntyre, a "busca" deve ser antes entendida como uma "educação do carácter" através do conhecimento de si próprio e da realização do bem, por mais trágica que essa busca seja.
Numa só frase: narrativa e identidade pessoal são conceitos diferentes para MacIntyre, mas a unidade narrativa torna a nossa identidade pessoal mais substantiva, com maior sentido. Se quiserem uma imagem, a identidade pessoal é a nossa nudez; as narrativas são a roupa que não só vestimos como incarnamos. Mas isso não significa que o hábito faça o monge; protege-o, no entanto, do frio...

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Bloomsday


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Hoje estou demasiado febril para explicar, como deve ser, esta minha fotografia.
Mas não queria deixar de celebrar o Bloomsday.

segunda-feira, 27 de junho de 2005

Cair no "lado a lado"

Joyce utiliza duas enigmáticas palavras na passagem que citei do Ulisses: "Stephen fechou os olhos para ouvir as suas botas triturar crepitantes detritos e conchas. Caminhas de qualquer modo sobre isso. Eu, passo a passo. Um muito breve espaço de tempo através de muitos breves tempos de espaço. Cinco, seis: o Nacheinander. Exactamente: e essa é a inelutável modalidade do audível. Abre os olhos. Não. Meu Deus! Se eu cair sobre um penhasco que está suspenso pela sua base, caio inelutavelmente pelo Nebeineinander!" Nacheinander (um após o outro) e Nebeneinander (lado a lado). Os termos são de Lessing, extraídos da sua célebre obra, Laokoon. "Um após o outro" refere-se às artes do tempo, a saber, a poesia; "lado a lado" visa as artes do espaço, as artes plásticas. Joyce pega nesses dois conceitos e brinca com a nossa relação com o tempo (audição) e com o espaço (visão).

domingo, 19 de junho de 2005

Diáfano

Quando Joyce escreve, "Estou aqui para ler as assinaturas de todas as coisas, ovas e sargaços, a maré que se aproxima, essa bota corroída", está provavelmente a pensar nas suas leituras do teósofo alemão Jakob Boehme. Também este falava de uma miríade de assinaturas no visível de uma realidade invisível. Mas rapidamente regressa a Aristóteles quando fala "nos corpos." "sinais coloridos. Limites do diáfano. Mas acrescenta: nos corpos. Então é porque tinha consciência deles, corpos, antes deles, coloridos. Como? Batendo com a cachimónia contra eles, é claro." Sobre o diáfano ou transparência em Aristóteles, diz-nos David Ross: "a transparência é agora tratada como estando, em maior ou menor grau, em todos os corpos quaisquer que estes sejam, e a cor é descrita como constituindo o limite do transparente nos corpos (isto é, no sentido em que o transparente está aprisionado nos corpos opacos), enquanto a luz constitui a actualidade do transparente na sua condição não limitada, isto é, tal como existe nos meios transparentes, como acontece com o ar e a água."

sábado, 18 de junho de 2005

Notas sobre o Bloomsday (1)

Primeira reflexão sobre o texto citado de Joyce no dia 16 de Junho (o Bloomsday). "Inelutável modalidade do visível" - a origem desta expressão tão pomposa é-me desconhecida, mas aqui Joyce (através do seu eterno alter ego, Stephen) pensa em Aristóteles. E, em particular, na obra conhecida pela designação latina, De Sensu et Sensibili. Se o ouvido pode participar e modificar o que ouve, a visão, pelo contrário, não. Daí esta "inelutável modalidade do visível". Por outro lado, Aristóteles parece insistir, neste tratado, que o essencial da visão transcende a cor. O que se vê então? Stephen pergunta-se então se não poderíamos conjecturar sobre a "inelutável modalidade do audível" quando fechamos os olhos.
Associações livres: o passeio pela praia de Sandymount (a poucos quilómetros de Dublin, no local em que o rio Liffey desagua). O nosso olhar quase consegue adivinhar a Inglaterra ali tão perto e omnipresente. Praia cinzenta, atmosfera cinzenta, areia escura, ar pesado sem ser sinistro que se estende até à torre do Ulisses. Uma placa antiga, cheia de ferrugem, dizendo que a praia é reservada a homens...:-). Nova associação: a alegria tão visível de uma jovem cega quando um dia lhe li esta passagem.

quinta-feira, 16 de junho de 2005

Bloomsday

"Inelutável modalidade do visível: pelo menos, se não mais, pensado através dos meus olhos. Estou aqui para ler as assinaturas de todas as coisas, ovas e sargaços, a maré que se aproxima, essa bota corroída. Verderanho, azul de prata, ferrugem: sinais coloridos. Limites do diáfano. Mas acrescenta: nos corpos. Então é porque tinha consciência deles, corpos, antes deles, coloridos. Como? Batendo com a cachimónia contra eles, é claro. (...) Stephen fechou os olhos para ouvir as suas botas triturar crepitantes detritos e conchas. Caminhas de qualquer modo por sobre isso. Eu, passo a passo. Um muito breve espaço de tempo através de muitos breves tempos de espaço. Cinco, seis: o Nacheinander. Exactamente: e essa é a inelutável modalidade do audível. Abre os olhos. Não. Meu Deus! Se eu cair sobre um penhasco que está suspenso pela sua base, caio inelutavelmente pelo Nebeineinander! (...)Vê agora. Esteve ali todo o tempo sem ti: e existirá sempre, mundo sem fim. (...) Que palavra é essa que todos os homens conhecem? Eu aqui estou sozinho, quieto. E triste também. Toca, toca-me.
Deitou-se para trás, estendido ao comprido sobre as rochas cortantes, metendo as notas rabiscadas e o lápis num bolso, o chapéu caído sobre os olhos. Esse é o movimento de Kevin Egan, o que eu fiz, cabeceando pela sesta, sono sabático. Et vidit Deus et erant valde bona. Olá! Bonjour. Benvindo como as flores em Maio. Sob a aba do chapéu ele observou o sol do sul através de pestanas trémulas como o pavão. Estou apanhado nesta cena escaldante. A hora de Pan, o meio-dia dos faunos. Entre plantas serpentes, pesadas de goma, frutos ressudando leite, as folhas jazem, abertas nas águas douradas. A dor está longe.
E não mais de apartes a cogitar."
Joyce, Ulisses

sábado, 15 de janeiro de 2005


A obsessão de Van Gogh em relação a sapatos, socos e botas é bem interessante, mas levanta certamente questões delicadas aos intérpretes do ensaio de Heidegger "A Origem da Obra de Arte". Afinal, qual é a pintura de Van Gogh que Heidegger comenta? Se fizerem uma busca na net, verão que todos os "sapatos" recentemente colocados no Expresso do Oriente, são pacificamente seleccionados como o "quadro" estudado por Heidegger... Mas deixemos em paz os caminhos da floresta e lembremo-nos da noção de Joyce de arte como "epifania" (Retrato do Artista como Jovem), bem "ilustrada" nesta série de quadros do pintor holandês.  Posted by Hello