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sexta-feira, 6 de julho de 2007

Apocalypto


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O último filme de Mel Gibson, Apocalypto é um bom filme, com excelentes momentos de realização cinematográfica. Mel Gibson ainda não se libertou de um imaginário de uma violência extrema - bem visível no filme sobre a Paixão de Cristo -, mas talvez através desta cartarse pessoal fílmica consiga, algum dia, libertar-se desta complacência estética no sangue e na dor. Ora os Maias, apesar dos seus rituais de uma violência indescritível (nalguns casos bem piores do que aqueles que surgem no filme), construíram uma grande civilização que atingiu o seu auge no século IX na zona compreendida entre o Sul do México e a Gautemala. Apesar da qualidade do filme, as vertentes científicas e artísticas da civilização Maia são desprezadas, assim como o seu prodigioso sistema mitológico. Mas há - reconheça-se - um belo momento no filme em que é narrado um mito, aqui reproduzido na sua versão inglesa:

"And a Man sat alone, drenched deep in sadness. And all the animals drew near to him and said, "We do not like to see you so sad. Ask us for whatever you wish and you shall have it." The Man said, "I want to have good sight." The vulture replied, "You shall have mine." The Man said, "I want to be strong." The jaguar said, "You shall be strong like me." Then the Man said, "I long to know the secrets of the earth." The serpent replied, "I will show them to you." And so it went with all the animals. And when the Man had all the gifts that they could give, he left. Then the owl said to the other animals, "Now the Man knows much, he'll be able to do many things. Suddenly I am afraid." The deer said, "The Man has all that he needs. Now his sadness will stop." But the owl replied, "No. I saw a hole in the Man, deep like a hunger he will never fill. It is what makes him sad and what makes him want. He will go on taking and taking, until one day the World will say, 'I am no more and I have nothing left to give.'"

É um mito extraordinário; vou tentar confirmar a sua origem Maia ou ameríndia. Brevemente voltarei aos Maias e aos seus mitos maravilhosos.


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segunda-feira, 21 de março de 2005

A Paixão de Mel Gibson

Ontem, decidi finalmente ver o polémico filme de Mel Gibson, A Paixão de Cristo. Vários amigos, alguns deles católicos, alertaram-me para a natureza integrista (=fundamentalista?) e anti-semita do filme. Se a memória não me falha, o Padre Stilwell, Presidente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica, sublinhou a interpretação muito sui generis do Cristianismo de Mel Gibson, visão próxima do culto, ainda hoje praticado em muitos países sul-americanos, ao poder redentor do "Sagrado Coração de Jesus". Outros ainda, sublinharam que Gibson utilizou o nosso fascínio doentio pela violência para abordar a paixão de Cristo e, deste modo, obter um bom rendimento comercial com a sua obra. Duvido sinceramente que tenha sido essa a intenção do realizador, mas, como se costuma dizer, as obras ultrapassam sempre os objectivos dos seus criadores.
Apesar de todas estas advertências, decidi vê-lo, mais não seja porque acho importante que todos nós, qualquer que seja a nossa crença, pensemos nos múltiplos significados associados a essa "passagem" que é a Páscoa. O começo do filme pareceu-me prometedor: as imagens iniciais são de grande beleza e a descrição da angústia humana de Jesus, da sua solidão, é muito bem conseguida psicológica e visualmente. Segundo Kierkegaard, é a angústia e a solidão vivida nos jardins de Getsemani que constitui um dos momentos cruciais da identidade religiosa cristã. Mel Gibson, apreendendo a analogia, mesmo que inversa, entre este jardim da angústia e o edénico, introduz uma figura demoníaca que dialoga, naquele momento, com Jesus. A dado momento, uma serpente aproxima-se de Jesus, fazendo novamente eco da analogia bíblica. Qual é a atitude de Jesus no filme? Esmagar pura e simplesmente a serpente com os seus pés... o significado alegórico é óbvio e trivial, mas o seu efeito simbólico é de tal modo terrível que decidi, nesse preciso instante, terminar o visionamento do filme. Nesta paixão de Gibson, a violência é a última palavra contra o mal. E recordei-me de um outro filme, o Pequeno Buda de Bertolucci que nos conta um mito tradicional do budismo. Uma enorme serpente, a "cobra" indiana, com a sua enorme cabeça, protege Siddharta Gautama, o futuro Buda, de uma chuva torrencial, permitindo que este último medite sobre as razões do sofrimento no mundo. Na cena atrás descrita, Gibson revelou que talvez estivesse a falar da sua paixão, mas não daquela que deu sentido à bondade e à compaixão que animaram a vida desse judeu, nascido em Betselem, Yeshua ben Yosef, Jesus filho de José (e, já agora, também de Miryam).