
Outro erro muito comum na análise do problema da identidade pessoal consiste em identificar a identidade de uma pessoa com a sua personalidade. Deste modo, a questão sobre a identidade pessoal seria do domínio da psicologia.
Que existem problemas psicológicos, reais e sérios, no âmbito da identidade psíquica parece-me ser uma afirmação trivial e verídica. Só que o problema da identidade pessoal não consiste em saber se temos ou não a mesma personalidade ao longo do tempo. Do mesmo modo que o corpo, a nossa personalidade vai-se alterando gradualmente e isso não impede que não se possa falar de uma mesma e única pessoa. Em casos dramáticos (traumas, acidentes, etc.) a alteração da personalidade e do carácter pode ser radical. Uma pessoa de carácter egoísta passa a ser compassiva e altruísta ou vice-versa. Esses casos foram estudados com profundidade por António Damásio no Erro de Descartes. Mas se estas alterações se podem processar sem modificação do sentimento de si, então o carácter e o conjunto de crenças de uma pessoa não é um critério para a sua identidade pessoal.
Imaginemos, por exemplo, que um dia alguém chamado "Maria" - pessoa muito calma e contemplativa - acorda e começa a ter o comportamento muito activo e nervoso da sua irmã "Marta". Para grande surpresa de todos, "Maria", em termos psicológicos, passou a ter todos os traços de carácter da "Marta". Será que isso altera a sua identidade pessoal? Se acontecesse algo similar a "Marta" - subitamente ficaria com o carácter de "Maria" - poder-se-ia dizer que teriam trocado de identidade pessoal? Parece-me evidente que não. "Maria" e "Marta" reconhecer-se-iam como sendo as mesmas pessoas mesmo que estranhamente as suas personalidades se tivessem modificado radicalmente.
Fica, no entanto, uma questão: existirá alguma vertente psicológica cuja alteração evidenciaria uma alteração da identidade pessoal? Apenas vejo uma e, mesmo assim, com algumas reservas: a memória. Não a memória de factos (lembrar-me que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia) ou a memória de hábitos e competências (por exemplo, saber andar de bicicleta), mas, sim, lembrar-me de mim próprio em situações distintas. E porquê? Porque a memória é a nossa única faculdade físico-psicológica que assegura (constituirá?) internamente - na perspectiva da primeira pessoa - a identidade de cada um de nós ao longo do tempo (isto é, que nos permite experienciar a identidade de dois estados de consciência nossos em momentos bem distintos).