
Ontem tive um sonho estranho. Foi um sonho filosófico, mas como todos os sonhos muito imagético. Via sequências de números passando vertiginosamente à minha frente. Foi um sonho a preto e branco, em que os números surgiam a branco sobre um fundo preto. No final daquela sequência de números - e ainda antes de acordar - surgiu-me claro como água o que passo a dizer:
Tudo o que existe tem uma causa. Nada existe que não seja efeito de outra coisa. Será, assim, possível falar-se racionalmente de uma causa primeira? Imaginemos que numerávamos sequencialmente um conjunto de efeitos e suas respectivas causas. Por exemplo, o evento 8 teria como causa o evento 7, este último como causa o evento 6, e assim por diante. Será que poderíamos chamar 1 à primeira causa? Não seria lógico perguntarmo-nos sobre o que tinha causado 1? Por que razão parar num 1? É, aliás, essa a crítica de Bertrand Russell ao argumento cosmológico da existência de Deus formulado por Aquino. Numa primeira análise, o argumento diz o seguinte: tudo tem uma causa, logo há uma causa primeira, uma causa incausada. Para B.R. este argumento era absurdo porque refutava na conclusão (há uma causa incausada) o que afirmava nas premissas (tudo tem uma causa).
Mas será que São Tomás tinha em mente a primeira causa como sendo o 1 de uma sequência de causas e efeitos? O meu sonho diz que não. A primeira causa refere-se àquela que põe em movimento a própria sequência de causas e efeitos. Voltando a utilizar a analogia dos números, a causa primeira é a expressão do que provoca a passagem radical, abrupta, do 0 a 1. Do 0 nada pode suceder. O 1 tem a mesma natureza do que outros números, apenas diferenciando-se por não se poder regredir mais. Se quisermos um outro tipo de analogia - agora física - o 1 é como a singularidade do "big bang". A causa primeira é o que permite que em vez do 0 exista uma sequência de 1,2,3,...
O meu sonho disse-me que só existem existem duas teorias racionais sobre o mundo: a de São Tomas ao defender que existe uma causa primeira, a que ele chama Ser ou Deus. A segunda é a de Espinosa (Spinoza) que defende que a Natureza ou Deus é causa de si. Racionalmente não vejo outras hipóteses. Não tem, por exemplo, nenhum sentido afirmar-se que do nada, através do nada, surgiu algo a que se chama mundo físico.
Como decidir entre São Tomás e Espinosa? As duas teorias filosóficas são tão coerentes e racionais uma como outra. Em função do que se conhece dos factos, a do São Tomás até é a mais credível pois tudo indica que o universo não é eterno. Mas Espinosa talvez argumentasse que, se assim é, provavelmente a natureza é composta por um número infinito de mundos do qual só conhecemos um.
E assim sonhei. Como todos os sonhos, absurdo, dirão muitos!!