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sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

Trevas

O termo "trevas" (darkness) na obra de Conrad desempenha várias funções simbólicas, algumas mais evidentes, outras nem por isso. Em primeiro lugar, é um termo que tem a sua raiz na Aufklärung e que designa aquilo que, por um lado, se opõe ao nosso conhecimento e, por outo, é susceptível de ser "iluminado" (conhecido). Conrad, ao publicar esta obra nos princípios do século XX, mostra como esse ideal, alimentado pelo positivismo vigente dos finais do século XIX, se desintegrou. Em segundo lugar, as trevas expressam a barbárie que se opõe à civilização; afinal, Kurtz era o símbolo do progresso, amante das artes e das ciências... quando Marlow o conhece na "estação interior", depois da transmutação radical, então, sim, tem a percepção que é um "homem notável", apesar da sua alma estar completamente "louca". Desde o início do romance até à frase que o conclui, a barbárie aparece como o "outro lado" da civilização (a proximidade, aqui, com a Montanha Mágica de Thomas Mann é notável; ou então, com o Doutor Fausto, quando nos é dito que a cultura não é mais do que a incorporação das trevas no culto dos deuses). Em terceiro lugar, as trevas traduzem o lado sombrio da alma humana, sendo a viagem pelo rio a metáfora do nosso percurso interior. Finalmente, as trevas são a Natureza com letra grande, tudo aquilo que, na sua força, está para lá da mesquinhez e dos intereses humanos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2005

O Professor

Esiste um inegável paralelismo entre "Mistah Kurtz" e o sinistro "Professor" do Agente Secreto de Conrad. É evidente que a figura de Kurtz não se esgota na atitude inquietante do professor bombista, mas este desejo de regeneração da mediocridade do mundo pela "loucura" e pelo "desespero" é comum às duas personagens de Conrad. Julgo que ainda não se deu a devida atenção à capacidade profética de Joseph Conrad de antever as ideologias simultaneamente totalitárias e niilistas que irão assolar a Europa nos anos 30.
E aqui fica uma passagem do Agente Secreto, obra espantosa que, em termos literários, iniciará um estilo que apenas será cultivado por mestres como Graham Greene e John le Carré.
"Toda a paixão está agora perdida. O mundo é medíocre, fraco e sem força. E a loucura e o desespero são uma força. E a força é um crime aos olhos dos malucos, dos fracos e dos imbecis que governam. (...) Toda a gente é medíocre. Loucura e desespero! Dê-me isso como alavanca e eu moverei o mundo. (...) E o incorruptível professor caminhava (...) desviando os olhos da odiosa humanidade. (...)Ele era uma força. Os seus pensamentos acolhiam as imagens de ruína e de destruição. Caminhava frágil, insignificante, descuidado, miserável e terrível, na simplicidade da sua ideia de chamar loucura e desespero à regeneração do mundo."/"All passion is lost now. The world is mediocre, limp, without force. And madness and despair are a force. And force is a crime in the eyes of the fools, the weak and the silly who rule the roost. (...) Everybody is mediocre. Madness and despair! Give me that for a lever, and I'll move the world. (...) And the incorruptible Professor walked (...) averting his eyes from the odious multitude of mankind. (...) He was a force. His thoughts caressed the images of ruin and destruction. He walked frail, insignificant, shabby, miserable--and terrible in the simplicity of his idea calling madness and despair to the regeneration of the world."
Joseph Conrad, Secret Agent

terça-feira, 25 de janeiro de 2005


"Mistah Kurtz - he dead" (T.S. Eliot, "Hollow Men") Posted by Hello

Heart of Darkness

"[Kurtz] deu o derradeiro passo, ultrapassou os limites enquanto foi consentido um recuo aos meus pés hesitantes. E talvez aqui esteja a verdadeira diferença; talvez todo o saber, toda a verdade e toda a sinceridade se concentrem nesse inapreciável instante em que transpomos o limiar do invisível. Talvez!"/he [Kurtz] had made that last stride, he had stepped over the edge, while I had been permitted to draw back my hesitating foot. And perhaps in this is the whole difference; perhaps all the wisdom, and all truth, and all sincerity, are just compressed into that inappreciable moment of time in which we step over the threshold of the invisible. Perhaps!"
Joseph Conrad, Heart of Darkness

terça-feira, 3 de agosto de 2004

A Escrita e a Visão

"A minha tarefa que procuro sempre realizar é a de fazer escutar, de fazer sentir, mas, acima de tudo, de fazer ver através do poder da palavra escrita. Isto e nada mais, pois isto é tudo." Conrad

Coppola, um discípulo de Conrad Posted by Hello

Turistas e Viajantes

O escritor americano Paul Bowles dizia algures no romance The Sheltering Sky ("O Céu que nos protege") que existe uma diferença capital entre se ser “turista” e “viajante”. O turista é aquele que mal chega a um determinado local estranho pensa logo voltar a casa; o viajante é aquele que pode nunca mais voltar. Os romances de Joseph Conrad e, em particular, Heart of Darkness (Coração de Trevas) são a expressão mais viva da situação do ser humano como “viajante” e de como ele tantas vezes se ilude, pensando que é apenas um “turista” ou mesmo um “marinheiro”. Sobre Marlow, o principal personagem das suas obras, e também de Heart of Darkness, diz o narrador: “Ele era um marinheiro, mas era também um viajante, pois a grande maioria dos marinheiros leva, se assim se pode dizer, uma vida sedentária.” Marlow, paradigma da natureza nómada, mais ou menos revelada, mais ou menos oculta de todo nós.

O nosso agente em Greenwich


Uma das melhores obras de Philip Glass, baseada no romance com o mesmo título de Conrad. Glass consegue apreender musicalmente o profundo sentimento trágico desta história, em que anarquistas planeiam destruir o observatório de Greenwich. Talvez mais interessante do que este "atentado contra a ciência", fundado, aliás, em factos reais, o grande interesse do romance está na descrição impiedosa da manipulação dos mais frágeis. Não é por acaso que Conrad é considerado um dos primeiros escritores modernistas de língua inglesa.

Conrad

Aquele que é considerado um dos maiores escritores de língua inglesa não é, no entanto, natural de Inglaterra e só aprendeu essa língua quando tinha mais de vinte anos. Estamos a falar naturalmente de Joseph Conrad. O seu verdadeiro nome é Josef Teodor Konrad Korzeniowski e nasceu em 1857 na actual Ucrânia no seio de uma família culta da nobreza polaca, adepta da independência da Polónia. Por causa das perseguições movidas pela polícia czarista, os pais de Conrad acabarão por morrer quando este tinha doze anos. Órfão, Conrad tomou então a decisão de fugir para Marselha com o objectivo de embarcar num navio e lançar-se na aventura. Acaba por se tornar comandante de um navio da marinha mercante inglesa, tornando-se cidadão inglês em pleno período vitoriano, quando o Reino Unido era a maior império do mundo. As aventuras que viveu, tanto na selva do Congo como na Malásia, constituirão o principal tema dos seus romances. Histórias como o "Coração de Trevas" ou o "Agente Secreto" dominam ainda o imaginário contemporâneo. Morrerá em Canterbury, a 3 de Agosto de 1924.