terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Será que Buda nasceu em Orissa?


Estátua de Buda em Orissa
Será que aquele que designamos como o Buda nasceu em Orissa, na Índia, e não no actual Nepal? Embora seja difícil chegar a uma conclusão definitiva, existem bons argumentos favoráveis à hipótese de Orissa. Elas baseiam-se no facto do imperador indiano budista, Ashoka, ter gravado inscrições que apontam nesse sentido. Por sua vez, são conhecidos éditos reais que dispensavam as populações de Orissa de pagar impostos, forma provável de reverenciar o local de nascimento de Siddhata Gotama. Existiu igualmente uma antiga aldeia em Orissa com um nome muito semelhante a Lumbini. Mas é evidente que as "cartas arqueológicas" ainda não estão todas jogadas!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

O Pagode Branco


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O templo de Jagannath, situado no estado indiano de Orissa, era conhecido pelos marinheiros portugueses como o pagode branco. Fica situado na bela praia de Puri, muito perto do Templo do Sol (em Konark) anteriormente referido. O Templo do Sol era conhecido pelo Pagode preto. Estes dois "pagodes" funcionavam como pontos de referência da navegação. Por mil e uma razões, é triste a designação "pagode", importada da China, para referir esses templos. Mas a transformação de um Pagode chinês ou de um Templo indiano num "pagode" era, afinal, inevitável, dado o confronto entre civilizações e religiões. No entanto, como sublinha, Lévi-Strauss, esses tempos devem ter sido prodigiosos, dignos de ser vividos, pois era como se todo o mundo se revelasse finalmente perante olhos incrédulos.

domingo, 26 de fevereiro de 2006

A Noite de Shiva/Xiva



Hoje, dia 26 de Fevereiro, celebra-se na Índia, o deus Shiva (ou Xiva).
Esta celebração é conhecida como Shiv-ratri (a noite de Shiva).

Jaipur por Sarojini Sahu


Palácio dos Ventos em Jaipur. E um poema da escritora indiana, Sarojini Sahu:

"You strike the earth
And it answers
With a metallic ring
You strike it again,
It pours for its sorrows
And asks for a drop of water.

Jaipur awaits
With the thirst
of a blotting paper.
It asks the eyes
Spreading away in pink cars:
Please, may I have
A drop of rain water?

It seems that water sings,
Talks in whispers,
overflows in affection.
How does water
Feel to the touch?

"Jaipur"

sábado, 25 de fevereiro de 2006

Templo do Sol


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Templo dedicado ao deus Surya (Sol) no estado de Orissa na Índia. Património da Humanidade!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Elohim criando Adão


Elohim criando Adão é uma das obras mais notáveis de William Blake. Elohim é a designação solene e tradicional para Deus que encontramos na Tora escrita (o Pentateuco da Bíblia). Provavelmente tem a sua raiz na palavra El, o termo comum para "Deus" nos povos semitas. Na primeira versão da criação da Bíblia, Deus surge como "Elohim" e o ser humano é a sua última criação; na segunda versão da criação, Deus é designado por YHVH, geralmente soletrado por Yahweh/Javé. Nesta segunda versão (provavelmente a mais antiga), o homem (e não o ser humano) é a primeira criação divina de um ser vivo. A designação "El" está presente em muitos nomes hebraicos como é o caso, por exemplo, de IsraEL. Como podem ver pela imagem, Blake sintetizou as duas versões.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Patíbulo


William Blake não foi apenas um visionário no domínio da poesia e das artes plásticas. Era também um crítico severo da escravatura e um defensor da igualdade fundamental entre todos os seres humanos. Nesta imagem, retrata o suplício e a tortura de um escravo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

As Duas Culturas


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Esta pintura de William Blake sobre Newton retrata bem o que foi o Romantismo. Esquecemo-nos que o movimento romântico irrompeu em plena revolução industrial. O princípio do século XIX foi a época das máquinas a vapor e dos primeiros comboios. A exaltação da sensibilidade pelos românticos não foi mais do que a outra face da destruição da mesma. E assim vemos, neste quadro, o "homem newtoniano" de costas voltadas à natureza exuberante procurando traçar as medidas do mundo. As "Duas Culturas" de Charles Snow irromperam aqui e, ainda hoje, mal se entendem.

What is it like to be a Bat?

"What is it like to be a Bat?" é o título de um dos ensaios de filosofia mais importantes do pensamento contemporâneo. Longe de ser um estudo de zoologia, questiona-se, afinal, sobre os limites do nosso conhecimento de outrem. Poderíamos reescrever o título sob a forma de "What is it like to be You?" Em face de outrem, cada um de nós calcula, faz analogias, descreve, mas pouco mais consegue apreender da experiência de se ser outro... Mas não é sobre filosofia que me gostaria de concentrar agora. Queria, antes, assinalar a invenção espantosa do neo-zelandês Dr. Leslie Kay. Através do estudo do sistema de sonares, ele inventou um dispositivo que dá uma nova esperança aos invisuais. Através de um aparelho que emite ultra-sons é possível a um cego localizar obstáculos através do eco produzido. E assim é possível a uma pessoa invisual andar de bicicleta ou jogar baseball. Não se trata de um projecto, é já uma realidade. O aparelho foi inventado em 93 e conferiu, em 1998, ao seu inventor, o Global Innovation in Communication Award. Se estiver céptico, veja estes vídeos.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

A Morte de Abel por William Blake


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Faz parte do nosso credo que não existem mitologias pessoais, nem linguagens privadas (a única experiência privada é apenas a da nossa mente). Os mitos são narrativas tradicionais e, como tal, só têm sentido no âmbito de uma ou mais culturas. E, no entanto, William Blake construiu a sua própria mitologia, tendo como pontos de referência os mitos narrados na Bíblia e a cultura britânica. Assim, ao lado de figuras como Abel e Caim da Bíblia, surgem personagens como os Zoas (de "seres vivos") e o Orc (bem longe da imagem terrível do Senhor dos Anéis). Por sua vez, se William Blake nos oferece a primeira mitologia literária britânica, fundada no grande Albion, por que razão Tolkien está convicto de que está a sua obra literária é a primeira versão imaginária da mitologia britânica?

David Irving


David Irving é um dos principais representantes da historiografia "revisionista" sobre a segunda guerra mundial. Foi agora condenado pela justiça austríaca a três anos de cadeia por negar a Shoah, isto é, o Holocausto nazi. Diga-se que Irving, nos seus livros, tem sobretudo tentado inocentar Hitler da "solução final", procurando encontrar um bode expiatório para o que aconteceu. Desde Himmler até Goebbels, candidatos não lhe têm faltado. É evidente que, para este historiador inglês, Hitler, apesar de anti-semita radical, desconhecia o que se passava nos campos de concentração e de extermínio. A tese é, no mínimo, exótica, sobretudo depois das declarações de Eichmann, o responsável político e técnico da perseguição aos judeus. Parece-me, no entanto, que a decisão de condenar Irving fere o princípio de liberdade de expressão e é, em termos políticos, estúpida.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Urizen


Urizen é, para William Blake, um dos quatro resultados (zoas) da divisão do homem primordial, Albion. Representa o princípio da razão e da lei. Embora não seja na "mitologia" de Blake uma figura simpática, esta imagem é frequentemente utilizada para "representar" Deus. Talvez fosse mais apropriada para traduzir o Demiurgo da Gnose antiga, isto é, o pincípio criador do mundo material. Na raiz do nome "Urizen" está provavelmente a expressão "Your reason" ou, então, o termo grego "orizô" (limitar, dividir).

sábado, 18 de fevereiro de 2006

O Canto do Cisne


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Andamos, agora, todos em estado de semi-pânico com as rotas migratórias dos cisnes que cobrem grande parte do centro da Europa. A beleza e a morte de mãos dadas. Mesmo com todas as pandemias à vista, é vital não perder o nosso encanto pelas aves do céu. É vital que a morte não domine a nossa sensibilidade e não cegue o nosso olhar. Afinal, a morte, como a beleza, estarão sempre presentes junto a nós. Como disse Buda, “nem no céu, nem nas profundezas do oceano, nem numa caverna da montanha, nem em qualquer outro lugar, o homem pode libertar-se do poder da morte.” (Buda, Dhammapada). Sem perdermos a prudência, saibamos, apesar do poder da morte, cultivar a beleza nas nossas vidas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Morreu Peter Strawson


Morreu no dia 13 de Fevereiro, o filósofo inglês Peter Strawson. Associo-o, sobretudo, a duas ideias revolucionárias: a primeira, de que é possível uma expressão ter significado sem ser necessariamente verdadeira ou falsa; a segunda, de que as pessoas são particulares-base irredutíveis no âmbito de uma descrição metafísica do mundo.

Tolerância

Numa época em que alguns grupos minoritários islâmicos manifestam uma intolerância *intolerável*, mais do que propor jogos de futebol euro-árabes (com os iranianos, paquistaneses e indonésios a assistir...:-) importa sublinhar a natureza essencialmente tolerante do Islão. E, para esse efeito, nada melhor do que citar um dos seus grandes mestres, o poeta Movlana (1207-1273), mais conhecido no Ocidente por Rumi:

“Eu não sou nem cristão nem judeu, nem parse nem muçulmano.
Eu não sou nem do Oriente nem do Ocidente, nem da terra nem do mar.
Eu não sou nem da natureza nem dos céus envolventes;
Eu não sou nem da terra nem da água, nem do ar nem do fogo;
Eu não sou nem do empíreo nem da poeira, nem da existência nem da entidade.
Eu não sou da Índia nem da China, nem dos Búlgaros nem de Saqsin
Eu não sou nem do reino do Iraque, nem da terra de Khurasan .
Eu não sou nem deste mundo nem do outro, nem do Paraíso nem do Inferno.
Eu não sou nem de Adão nem de Eva, nem do Éden nem de Rizwan.
O meu lugar é a ausência de lugar, o meu rasto é a ausência de rasto.
Eu não sou nem corpo nem alma, porque pertenço à alma do Bem-Amado.
Eu libertei me da dualidade, eu vi que os dois mundos são um só;
Eu busco o Uno, conheço o Uno, vejo o Uno, chamo o Uno.
Ele é o primeiro, Ele é o último, Ele é o exterior, Ele é o interior.
Eu não conheço ninguém a não ser Ele.
Eu estou intoxicado pela taça do amor; os dois mundos
passaram fora da minha vista.
Nada mais tenho a fazer, se não festejar e alegrar me.
Se passei na minha vida um só instante sem ti,
Toda a vida me arrependo desse tempo e dessa hora.
Se mereço passar neste mundo um só instante contigo,
Eu calcarei com os pés esses dois mundos, dançarei triunfalmente para sempre.”
Livro de poemas de Shams de Tabriz

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

A Susana e os Velhos


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Quem não conhece a história do banho da Susana, observada por velhos lascivos? Bem, aqui têm um belo quadro de Albrecht Altdorfer sobre este tema. E onde estão os velhos lúbricos? Se quiserem uma pista, não estão a ver os pés...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006


Embora Hugo Pratt preferisse o preto e branco, se quiser ver a imagem a cores, clique aqui.

O desejo de ser inútil


A Relógio d'Água editou finalmente o livro "O desejo de ser inútil", onde Hugo Pratt, o autor de Corto Maltese, fala longamente de toda a sua vida. O título da obra pode surpreender alguns, mas, como diz Pratt, "quando hoje penso naqueles que me acusavam de ser inútil, e no que eles julgavam ser útil, então, perante eles, não tenho apenas o prazer de ser inútil, mas o desejo de ser inútil." (p.289 da edição portuguesa).

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Todos em círculo


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Esta pintura de Albrecht Altdorfer, dedicada a uma tema tradicional da pintura sacra, é deliciosa.

Responsabilidade

Pela primeira vez, não estou de acordo com a Fonte do Horácio. O argumento da responsabilidade não deve ser usado para coarctar a liberdade de expressão, desde que esta última não fira princípios legalmente estabelecidos em regimes democráticos. É essa a razão pela qual existem leis que protegem os cidadãos de actos irresponsáveis na imprensa (incitamento à violência, lesão do bom nome das pessoas, etc.). Não penso que os "cartoons dinamarqueses" tenham ferido nenhuma dessas leis. Mas se alguém se sente ofendido com eles, o que deve fazer é processar o jornal. E os tribunais devem determinar se houve ou não acto doloso e criminal. Será que vamos dizer que Rushdie, Scorsese, Serrano, Godard ou Saramago, entre tantos outros, foram irresponsáveis e que, como tal, devem ser condenados moralmente? Será que vamos dizer que estão ao mesmo nível daqueles que agiram violentamente por se sentirem ofendidos com as suas obras? Triste a democracia que os equiparasse!

sábado, 11 de fevereiro de 2006

Albrecht Altdorfer


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Albrecht Altdorfer é um dos grandes pintores da história da arte alemã, embora pouco conhecido em Portugal. A razão principal deste desconhecimento deriva, a meu ver, do facto de ter sido eclipsado pela imagem genial de um outro Albrecht (Dürer). Estes dois pintores foram praticamente contemporâneos. Altdorfer, o velho aldeão, é natural do Sul da Alemanha e é geralmente identificado como um dos exímios pintores da escola de Danúbio. Esta imagem, conhecida como a batalha de Alexandre (cerca de 1529), é típica da sua capacidade em apreender na pintura o pormenor de uma paisagem distante (neste caso, uma batalha). Este seu gosto pela multiplicação infinita do pormenor faz-me lembrar outras obras de pintura da civilização clássica indiana.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Se vires um Buda, mata-o

Esta é uma célebre sentença budista que explica a razão pela qual, em grande medida, o budismo é uma das religiões mais tolerantes do mundo em que vivemos. Se não conseguirmos "destruir" a imagem do que veneramos, corremos o sério risco de criarmos ídolos, profetas de pés de barro. Tudo isto a propósito da recente polémica sobre os cartoons publicados na Dinamarca. Triste a reacção do nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros que decidiu, em comunicado oficial, repudiar os polémicos desenhos. Sem dúvida que o governo português deve respeitar todas as crenças religiosas, mas não deve fazer juízos de valor sobre a reacção das pessoas a qualquer religião. A única excepção é a condenação da violência e o incitamento à mesma (mas o comunicado parece fazer voz com aqueles que agiram violentamente). Corajosa, sim, a reacção do primeiro-ministro da Dinamarca: o governo dinamarquês nunca pedirá desculpas a ninguém por aquilo que aconteceu. Gostaria de acrescentar que tenho uma visão muito positiva de Muhammad (Maomé) e que a religião islâmica é, no essencial, uma religião pacifica. A palavra "islam" pode ser traduzida livremente por "estar em paz". Mas nenhuma crença religiosa ou ateia pode violar o direito mais fundamental de todos os seres humanos: o direito à liberdade.

Kitsch Trash Piroso na Arte


A artista ucraniana Nathalia Edenmont - actualmente residente na Suécia - faz parte da nova escola artística chamada "body art" ou "ritual art". O seu método de criação artística é muito sui generis. Mata animais para os transformar em elementos de obras ditas artísticas. Neste caso, matou cinco hamsters para fazer esta montagem. Segundo ela, os cinco hamsters representam as cinco estrelas da antiga bandeira da União Soviética, império que oprimiu o seu país. Edenmont não fica apenas por hamsters... mata igualmente gatos e outros animais. Quando questionada sobre a barbaridade dos seus actos, responde habitualmente com o facto de milhões de animais serem mortos diariamente. E assim, com esta "morte artística", a vida destes animais ganha um novo sentido. Não vou discutir o nível (QI) revelado nesta argumentação. Lembrava apenas o facto histórico de Nero transformar corpos de cristãos em tochas para obter um efeito artístico nos seus jardins. O escritor austríaco Hermann Broch tinha um nome - que se tornou comum - para este tipo de experiências artísticas: kitsch, isto é, trash, lixo, piroso...