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domingo, 14 de dezembro de 2008

Pensar e Conhecer/Sentido e Verdade



"O grande obstáculo que a Razão (Vernunft) põe no seu próprio caminho ergue-se do lado do intelecto (Verstand) e do critério inteiramente justificado que este estabeleceu para os seus próprios propósitos, isto é, para matar a nossa sede e satisfazer a nossa necessidade de conhecimento e cognição. A razão pela qual nem Kant nem os seus sucessores prestaram alguma vez atenção ao pensar como uma actividade e ainda menos às experiências do eu pensante é que, a despeito de todas as distinções, estavam a exigir o género de resultados e a aplicar o género de critérios para a certeza e para a evidência que são os resultados e os critérios de cognição. Mas se é verdade que o pensar e a razão têm justificação para transcender os limites da cognição e do intelecto - justificados por Kant com o fundamento que as matérias com eles lidam, apesar de incognoscíveis, são do maior interesse espiritual para o homem - então o pressuposto deve ser que o pensar e a razão não estão interessados naquilo em que o intelecto está interessado. Antecipando e para ser breve: a necessidade da razão não é inspirada pela demanda de verdade, mas, sim, pela demanda de sentido. E verdade e sentido não são o mesmo. A falácia básica - que toma precedência sobre todas as falácias metafísicas específicas - é interpretar o sentido segundo o modelo da verdade." (Hannah Arendt, The Life of the Mind/ A Vida do Espírito).

segunda-feira, 14 de maio de 2007

As duas faces de uma mesma moeda


"O próprio Einstein, numa observação muito citada, traçou claramente a linha entre as frases cognitivas e proposições especulativas. "O mais incompreensível facto da Natureza é o facto de ela ser compreensível". Aqui podemos ver como eu pensante se intromete na actividade cognitiva, interrompendo-a" (Hannah Arendt, The Life of the Mind). E ainda bem que o faz...

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Hannah Arendt


Nos próximos dias 11 e 12 de Janeiro, realiza-se na Faculdade de Letras de Lisboa um Colóquio Internacional dedicado à obra e pensamento de Hannah Arendt, um dos nomes mais importantes da filosofia contemporânea. Para mais informações, clicar aqui.

quinta-feira, 17 de março de 2005

Shoah

Aquilo que escrevi sobre a Shoah (conhecido no Ocidente como o Holacausto nazi) suscitou, como podem ver, alguma controvérsia. Como considero este tema capital no âmbito da filosofia da história, retorno a ele. É um facto inegável e infelizmente trivial que já sucederam crimes horríveis ao longo da história da humanidade. As contínuas invasões de todo o mundo civilizado (islâmico, europeu, indiano, chinês) por hordas de mongóis atingiram níveis de violência e de crueldade que transcenderam o pior que a nossa imaginação pode representar. E os mongóis até eram tolerantes...O genocídio de povos não é algo de novo na história (lembrem-se dos arménios dizimados pela Turquia, dos tibetanos pela China, já para não referir do recente conflito na Jugoslávia e no Sudão). Os Khmers vermelhos no Cambodja condenaram à morte - directa ou indirectamente - um terço da população daquele país fabuloso. Os crimes do "pai Estaline" afectaram pela morte milhões de pessoas. A guerra civil no Ruanda assumiu proporções inimagináveis com a cumplicidade e o silêncio de todos nós.
Se assim é, o que é há de único no Holocausto nazi? Terem sido os judeus e os ciganos os bodes expiatórios de um regime totalitário? Qualquer regime totalitário cria os seus bodes expiatórios, pois só pode sobreviver com eles...
O que há de ÚNICO na Shoah é que o extermínio foi realizado em nome da ciência (a tal eugenia fundada nos conhecimentos de uma genética a dar os seus primeiros passos), da arte (com a batuta do genial Wagner, o grande compositor alemão que, um dia, disse dos judeus: "é pena que eles não tenham ardido todos", quando um incêndio ceifou a vida de dezenas de judeus numa sinagoga), da filosofia (será preciso recordar as "maravilhosas" frases de Hegel, de Schopenhauer, de Nietzsche, de Spengler sobre a necessidade de erradicar os judeus e o judaísmo da nossa civilização)? A Europa que realizou a Shoah não era uma região primitiva e bárbara. O que faz da Shoah um caso ÚNICO é que foi a nossa Civilização que cometeu um dos actos mais horríveis da história. O que me assusta na Shoah não é a crueldade de algum guarda psicótico nazi; o que me assusta na Shoah é aquilo que assustou Hannah Arendt, a saber, a "banalidade do mal", bem personificada, aliás, em Eichmann. Quando Eichmann diz que sempre gostou dos judeus não estava, a meu ver, a mentir. Para quê mentir, quando já não tinha nada a perder? Os principais dirigentes nazis (mesmo aqueles que dirigiram alguns dos piores campos de extermínio) não eram pessoas incultas, sem inteligência, sem formação filosófica e artística...e, no entanto, foram capazes de condenar milhões de crianças à morte.
George Steiner dizia que a existência de um Schubert *talvez* nos possa redimir a todos...talvez! Mas duvido, pois é o mesmo Steiner que se pergunta como é que alguém pode tocar maravilhosamente Beethoven à noite e exterminar crianças no dia seguinte. De uma forma fria, racional, calculista, com o mínimo de confusões possíveis... É essa a "razão" que se esquece das pessoas como fins em si mesmos. Se há algo de semelhante à Shoah nazi, só me recordo da decisão de lançar duas bombas atómicas sobre a população civil de Hiroshima e de Nagasaki. Encontramos aí a mesma lógica, fria, racional que não se importa que tudo vá pelos ares desde que se esteja convicto de "ter razão".