sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Avicena



Confesso que sei muito pouco sobre o Uzbequistão - nem sei mesmo se o nome está bem escrito, visto que, por vezes, já me deparei com "Usbequistão".
Calculo - mas posso estar redondamente enganado - que os leitores do Expresso do Oriente devem estar na mesma situação (com a excepção provável daqueles que já visitaram Tashkent, a capital do país ;)
Sei, no entanto, que o Uzbequistão já foi o centro de um enorme império, conquistado a ferro e fogo por um dos maiores tiranos da História - embora possuísse algum gosto estético - de nome Tamerlão (c.1336-1405) ou, na sua forma mais precisa, Timur (nome que significa literalmente "ferro"). A ele está associado a bela cidade de Samarcanda (embora não tenha sido ele a fundá-la; esta cidade - com um nome tão mágico - é uma cidades mais antigas do mundo).
Ora, numa localidade do Uzbequistão nasceu um dos maiores pensadores da humanidade, de nome Ibn Sina, mais conhecido no Ocidente por Avicena (980-1037).
Provavelmente os uzbeques mal o conhecem, pois a sua família era persa, sendo certamente considerado no Irão e no mundo islâmico, como um dos seus filhos mais ilustres. E não é por menos...
Avicena era uma autêntica enciclopédia viva, destacando-se como médico, astrónomo, químico, geólogo, lógico, matemático, filósofo, poeta, psicólogo, professor, político,... é melhor parar por aqui :) A ele se deve a descoberta do fenómeno da capilaridade cujos efeitos ainda são hoje bem visíveis na hidráulica e na destilação de substâncias químicas.
Conheço-o sobretudo como filósofo e como um dos grandes metafísicos, no qual se cruzaram influências neoplatónicas e aristotélicas. Vou tentar expor telegraficamente o seu principal argumento filosófico, cuja influência é bem conhecida em São Tomás de Aquino.

1. Do nada, nada pode surgir;
2. E, no entanto, existem por todo o lado "coisas" (entes).
3. Todas as coisas que presenciamos, a começar por nós, são contingentes.
4. Quando dizemos que são contingentes queremos dizer que essas "coisas" não existem por si e desaparecem no tempo.
5. Todos os seres contingentes existem necessariamente por outrem.
6. Mas esse outrem, no limite, não pode ser o nada, pois do nada, nada emerge.
7. Também, no limite, a origem última do que é contingente não pode ser uma coisa contingente porque senão seria dependente de outra (e assim por diante).
8. Logo, para lá da existência contingente, tem de haver uma existência necessária.
9. Quando falamos de realidade sem mais, queremos referir essa existência necessária.
10. Essa realidade é em si e por si, o que significa que existiu sempre.
11. Não podemos alguma vez pensar que essa realidade nunca existiu.
12. É essa realidade necessária que está no fundamento de todas as coisas que existem.
13. O que chamamos mundo não é mais do que a expressão dessa realidade eterna.
14. Logo, não é importante saber se o mundo teve um começo no tempo.
15. O que importa é apreender que existe uma realidade última.
16. O que podemos dizer dela?
17. Na verdade muito pouco, pois a essência coincide com a sua existência.
18. Não é racionalmente admissível que possa ser definida (da mesma forma que podemos definir um ente, isto é, uma coisa contingente).
19. Não pode ter opostos, pois nessa realidade última estão todos os opostos; não poder ocupar um espaço, pois nela estão todos os espaços; não pode ser temporal, pois é nela que o tempo se dá; não pode ser uma quantidade, etc., etc.
20. A única resposta possível à razão pela qual existe algo (uma ou várias coisas contingentes) é porque essa realidade existiu sempre necessariamente.
21. É, por essa razão (por ser essa existência necessária, por ser essa realidade última) que lhe chamamos Deus.
22. E não contrário... ;)
23. Com efeito, o nome porque importa...

Faz sempre bem - de vez em quando, claro - fazer um pouco de "metafísica no blog"...

3 comentários:

Maísha disse...

:-)))))
espectacular

nuno maltez disse...

Excelente.

Penso que a única forma de criticar o argumento é a seguinte:

Não é necessário que a cadeia de causas pare. Pode dar-se a regressão infinita de seres contingentes.

Mas Hume (ou alguém...) diz:

Há algo a gerar a cadeia e que está fora dela.

Mas isso é assumir por princípio que há a causa necessária.

E pergunta-se: porquê?

E vai-se para o argumento das causas. Aí, regride-se de novo....

Depois, para evitarmos, dizemos: É, mas não existe.

E o que queremos dizer com isso? Absolutamente nada, arranjar uma solução ad-hoc para o nosso problema.

Que problema? - Por que existe algo em vez de nada?

Pensamos: o nada não pode existir. Mas isso é errado, porque "nada" nem refere. Pensamos, mais aceitavelmente: poderia não ter existido coisa alguma.

É logicamente possível, mas será realmente possível?

E "realmente possivelmente" não quer dizer metafisicamente possível, porque não existe algo como a possibilidade metafísica, mas apenas lógica e física.

Por ex. se disser "é possível que um objecto viaje mais rápido que a luz", digo logicamente, mas não sei se fisicamente, e não metafisicamente. Para que o dissesse metafisicamente seria necessário que existisse um domínio da realidade que seria metafísico, não lógico nem físico. Se assim fosse, a frase poderia ser traduzida em "metafisicamente, é possível que um objecto viaje mais depressa que a luz". E porquê? Porque não é logicamente impossível. Não dizemos que é metafisicamente possível que um objecto viaje e não viaje mais rápido que a luz... Descartes, ao dizer que Deus poderia ter feito tudo de outro modo, a lógica e a matemática, está apenas a tentar que Deus não fique "abaixo" das leis lógicas e matemáticas, que são um problema para a ideia de um ser todo-poderoso ou, melhor, livre. Não sei, mas talvez essas leis, se o forem, façam parte dele. A minha crença é: Deus é a inteligência. Não a minha, nem a tua, nem de ninguém, mas a inteligência mesmo, com letra grande lol.

Abraço.

nuno maltez disse...

Claro que onde se lê "realmente possivelmente" deveria ler-se "realmente possível"....

Digo que acredito que é inteligência, mas é liberdade. Porém, a inteligência pode ter a justificação para a liberdade.

Para nós a liberdade não tem justificação, já que é incondicionada.

Mas a inteligência pode condicionar-se a ela mesma sem se condicionar, porque tudo pode.....

Não sei....

Ou tudo pode menos contrariar-se a si mesma, embora seja livre, porque tem justificação para isso.

Afinal, lá está tudo em ordem.