domingo, 5 de dezembro de 2004

Mistérios da Filosofia

Para mim, um dos maiores mistérios da história da filosofia analítica é o ódio que, nos nossos dias, muitos filósofos analíticos têm em relação aos seus principais pensadores. G.E. Moore, o autor dos Principia Ethica, considerado um dos "pais" da filosofia analítica, tem o seu nome no index porque defende uma ética não-naturalista; Wittgenstein, o filósofo mais importante da escola analítica, o autor do Tractatus Logico-philosophicus, está proscrito porque tinha intuições místicas, acreditava em Deus e fazia a distinção entre o que se poderia dizer e o que apenas se poderia mostrar (que ele achava o mais importante); Austin é nome esquecido visto que tinha a ideia original de pensar que as nossas frases não se esgotavam no seu valor descritivo; Thomas Nagel é objecto de desconfiança, pois parece estabelecer limites ao nosso conhecimento científico da mente; Hilary Putnam é olhado de lado porque abandonou a sua anterior posição funcionalista e considera o naturalismo um erro; Nelson Goodman porque se interessa por Estética, assunto pouco relevante...; Tom Regan porque rejeita a ética utilitarista e defende a ideia "estranha" de "sujeitos-de-uma-vida" (além do mais, gosta de Gandhi); Chalmers porque critica ferozmente as explicações reducionistas da mente...esta lista de grandes filósofos analíticos "marginalizados" poderia ser quase inesgotável. Há qualquer coisa estranha nesta história toda que me ultrapassa. Os freudianos talvez dissessem que "Freud explica": a morte do pai. Não me satisfaz, visto muitos deles são filhos, se é que não são "netos". Outros dir-me-ão que faz parte da filosofia analítica a discussão argumentativa e os filósofos em questão apresentaram "maus argumentos". A única conjectura plausível é que alguém se considera o "Deus" da Filosofia Analítica e, como tal, tudo o que belisque minimamente a atitude naturalista apenas pode ter "pensamentos poucos claros"...O que felizmente esta atitude dogmática não belisca é a importância fulcral de todos estes grandes filósofos analíticos no pensamento contemporâneo.

1 comentário:

MRF disse...

Alguns deste filósofos analíticos tb começaram por "odiar" as teorias filosóficas que os (en)formaram. Wittgenstein acabou mesmo por eliminar qualquer possibilidade de uma "teoria filosófica". É assim que o pensamento evolui, não é? Com rupturas e ódios.