quinta-feira, 16 de junho de 2005

Bloomsday

"Inelutável modalidade do visível: pelo menos, se não mais, pensado através dos meus olhos. Estou aqui para ler as assinaturas de todas as coisas, ovas e sargaços, a maré que se aproxima, essa bota corroída. Verderanho, azul de prata, ferrugem: sinais coloridos. Limites do diáfano. Mas acrescenta: nos corpos. Então é porque tinha consciência deles, corpos, antes deles, coloridos. Como? Batendo com a cachimónia contra eles, é claro. (...) Stephen fechou os olhos para ouvir as suas botas triturar crepitantes detritos e conchas. Caminhas de qualquer modo por sobre isso. Eu, passo a passo. Um muito breve espaço de tempo através de muitos breves tempos de espaço. Cinco, seis: o Nacheinander. Exactamente: e essa é a inelutável modalidade do audível. Abre os olhos. Não. Meu Deus! Se eu cair sobre um penhasco que está suspenso pela sua base, caio inelutavelmente pelo Nebeineinander! (...)Vê agora. Esteve ali todo o tempo sem ti: e existirá sempre, mundo sem fim. (...) Que palavra é essa que todos os homens conhecem? Eu aqui estou sozinho, quieto. E triste também. Toca, toca-me.
Deitou-se para trás, estendido ao comprido sobre as rochas cortantes, metendo as notas rabiscadas e o lápis num bolso, o chapéu caído sobre os olhos. Esse é o movimento de Kevin Egan, o que eu fiz, cabeceando pela sesta, sono sabático. Et vidit Deus et erant valde bona. Olá! Bonjour. Benvindo como as flores em Maio. Sob a aba do chapéu ele observou o sol do sul através de pestanas trémulas como o pavão. Estou apanhado nesta cena escaldante. A hora de Pan, o meio-dia dos faunos. Entre plantas serpentes, pesadas de goma, frutos ressudando leite, as folhas jazem, abertas nas águas douradas. A dor está longe.
E não mais de apartes a cogitar."
Joyce, Ulisses

1 comentário:

Manuela Pereira disse...

Este blog é lindo. Absolutamente delicioso de ler e de ver. Parabéns