terça-feira, 5 de abril de 2005

Crô! Crô!

A obra de Locke sobre o entendimento humano (traduzido na Gulbenkian) tem passagens memoráveis. Neste blog, já fiz referência a uma delas, a saber, aquela em que ele discute a ideia do mundo estar assente na carapaça de uma tartaruga (história que Stephen Hawking pensa erradamente ter origem em Bertrand Russell). Ora, numa outra passagem, bem mais divertida, fala-nos de um papagaio de um português (sic) que discursava normalmente (infelizmente Locke não sabia português e os diálogos do príncipe com o papagaio são em francês). E aqui vai o texto:
"Disse-me que tinha ouvido falar desse tal velho papagaio quando estivera no Brasil e, embora não acreditasse em nada do que era dito - e era muita coisa -, ficara tão curioso que o mandara procurar; e que era um papagaio grandioso e muito velho. Quando o trouxeram pela primeira vez à (sua) presença, que estava rodeado de um grande número de holandeses, o papagaio disse nesse momento: "Que grande grupo de homens brancos aqui temos!" Perguntaram-lhe o que é que pensava que aquele homem era, apontando para o príncipe. Ele respondeu, dizendo: "Um general ou parecido". Quando o aproximaram do príncipe, este perguntou-lhe: "D'où venez-vous?" O papagaio respondeu: "De Marinnan". O Príncipe: "À qui êtes-vous?" O papagaio: "A un portugais". O príncipe perguntou: "Que fais-tu là?" O papagaio respondeu: "Je garde les poulles". O Príncipe riu e disse: "Vous gardez les poules?" O papagaio respondeu: "Oui, moi; et je sais bien faire", e repetiu quatro ou cinco vezes o som que as pessoas costumam fazer quando chamam as galinhas" (An Essay, II, XXVII).
Locke, prudentemente, deixa para os naturalistas a confirmação da veracidade desta história. Mas, para lá do carácter anedótico do episódio, as reflexões que Locke faz sobre hipotéticos papagaios falantes permite-lhe diferenciar os conceitos de "ser humano" e de "pessoa". Com efeito, se víssemos um papagaio a especular filosoficamente, nunca diríamos: "Olha, aquilo é um homem!" Diga-se que os naturalistas actuais estão cada vez mais convencidos das capacidades cognitivas dos papagaios - apesar dos seus "miolos de pássaro" - comparando-os mesmo com os primatas. Ainda recentemente, o canal Odisseia apresentava um excelente documentário que defendia a tese de que os papagaios são os animais mais inteligentes para lá dos homens. Afinal, será inocente esse desejo mimético do papagaio em agradar ao seu dono, a um ponto que altera a sua voz?

2 comentários:

j.p. disse...

Conheces o livro de Augusto Abelaira "Nem Só Mas Também"? Edição póstuma, infelizmente. Achei graça porque a trama narrativa a dada altura fica toda centrada nesta particularidade dos papagaios. Como li há pouco tempo, gostei da coincidência do teu post. Obrigado pelo esclarecimento sobre a frase que o Hawkings cita como de Russell. Não tinha investigado. provavelmente o Russell cita-a numa das suas obras sobre a história da Filosofia, referindo-se a Locke, sem que fique claro essa fonte. Um abraço. Continua a ser especial regressar aqui. Jorge (do outro lado da Madrugada)

Bhixma disse...

Obrigado pela referência (Abelaira) e pelas palavras!