domingo, 15 de maio de 2005

Quem sou?/O que sou?

"É sempre falso pretender explicar os fenómenos de um país através do carácter dos seus habitantes. Porque o habitante de um país tem sempre, pelo menos, nove caracteres: um carácter profissional, outro de classe, outro sexual, outro nacional, outro político, outro geográfico, outro consciente, outro inconsciente e talvez ainda um privado; reúne-os na sua pessoa, mas está deles dissociado e não passa, afinal, de um pequeno vale onde estes vêm desaguar para em seguida irem dali encher outros vales com os seus riachos. É por isso que todo o habitante da Terra possui ainda um décimo carácter que não é mais do que a imaginação passiva de espaços ainda não preenchidos; este carácter confere ao homem todas as liberdades, excepto uma: a de tomar a sério o que fazem os seus outros caracteres (nove, pelo menos) e aquilo que lhes sucede; portanto, por outras palavras, só a liberdade, precisamente, poderia preencher esse espaço. Este espaço, difícil de descrever, confessemo-lo, será colorido e formado de forma diferentes na Itália e na Inglaterra, porque tudo quanto se destaca no seu fundo possui outra forma e outra cor; e portanto é o mesmo tanto aqui como lá, isto é, precisamente um espaço invisível e vazio, na qual a realidade se ergue como uma pequena aldeia num jogo de construções pela imaginação." Robert Musil, O Homem sem Qualidades

2 comentários:

hfm disse...

Gostei de ler.

MRF disse...

:)
ontem peguei no vol.I e fui relendo..., quria lembrar-me daquele princípio, a apresentação do homem sem qualidades, filho do homem cheio de qualidades...