sábado, 15 de janeiro de 2005


A obsessão de Van Gogh em relação a sapatos, socos e botas é bem interessante, mas levanta certamente questões delicadas aos intérpretes do ensaio de Heidegger "A Origem da Obra de Arte". Afinal, qual é a pintura de Van Gogh que Heidegger comenta? Se fizerem uma busca na net, verão que todos os "sapatos" recentemente colocados no Expresso do Oriente, são pacificamente seleccionados como o "quadro" estudado por Heidegger... Mas deixemos em paz os caminhos da floresta e lembremo-nos da noção de Joyce de arte como "epifania" (Retrato do Artista como Jovem), bem "ilustrada" nesta série de quadros do pintor holandês.  Posted by Hello

Imagem da sonda Huygens em Titã - fico deslumbrado com o facto de quase todas as "previsões" científicas, tecnológicas e políticas do livro/filme dos anos 60, "2001 Odisseia no Espaço" se terem realizado. Agora só nos falta viajar ao som das valsas de Strauss e de ter um HAL (de preferência, um não neurótico...) Posted by Hello

Vincenzo Foppa


"O jovem Cícero lendo" Posted by Hello

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

Richard Strauss e Eichendorff

A última e mais bela canção...

”Através de penas e de alegrias
Caminhámos de mão dada,
Agora repousamos da viagem
Nesta terra serena.

À nossa volta os vales inclinam-se,
Escurece já o céu,
Só duas cotovias se elevam,
Sonhadoras no ar perfumado.

Aproxima-te e deixa-as esvoaçar.
Em breve será hora de dormir,
Não nos vamos nós perder
Nesta solidão.

Ó ampla e serena paz,
Tão profunda ao pôr do Sol,
Como nós estamos cansados de viajar –
Será isto talvez a morte?”

Joseph von Eichendorff, Ao pôr do Sol

„Wir sind durch Not und Freude
Gegangen Hand in Hand;
Vom Wandern ruhen wir
Nun überm stillen Land.

Rings sich die Täler neigen,
Es dunkelt schon die Luft,
Zwei Lerchen nur noch steigen
Nachträumend in den Duft.

Tritt her und lass sie schwirren.
Bald ist es Schlafenszeit,
Dass wir uns nicht verirren
In dieser Einsamkeit.

O weiter, stiller Friede!
So tief im Abendrot,
Wie sind wir wandermüde –
Ist dies etwa der Tod?“

Joseph von Eichendorff, Im Abendrot

Van Gogh 3 Posted by Hello

Van Gogh 2 Posted by Hello

Van Gogh 1 Posted by Hello

As Raízes da Solidão

"Há alguns anos, as pessoas queixavam-se de que as famílias tinham deixado de conversar, quando à noite se reuniam diante da televisão. Hoje, já nem isso se consegue: cada um tem um televisor para ver o seu programa preferido. Penso, todavia, que quando as pessoas se queixam de solidão, não estão só a falar de tudo isto. O sentimento de solidão que assola o homem moderno é muito mais profundo e existencial. Primeiro tem a ver com o facto de, nas cidades, estarmos separados da natureza e dos elementos. Em frente de uma lareira ou à beira-mar sentimo-nos acompanhados (...) No campo, o vento, a terra (...) os pássaros fazem-nos companhia. Nunca será o mesmo estar sozinho na praia ou num apartamento climatizado, onde o único ruído que nos chega é o ronronar do ar condicionado, pontuado pelo clamor das buzinas. Quem passa horas a fio em escritórios, onde não chega a luz do dia nem um sopro de vento, está hermeticamente isolado do mundo natural e, por conseguinte, de uma parte importante de si próprio. No entanto, embora terrível, essa não é ainda a pior amputação. (...) Não só não nos conhecemos, como temos medo de nos conhecermos: um minuto de silêncio e de inactividade causa-nos pânico." Tsering Paldrön, A Alquimia da Dor, Pergaminho, p.40

Dançarina (dinastia Han) Posted by Hello

Ezra Pound


"And then went down to the ship,
Set keel to breakers, forth on the godly sea, and
We set up mast and sail on that swart ship,
Bore sheep aboard her, and our bodies also
Heavy with weeping, and winds from sternward
Bore us onward with bellying canvas,
Crice's this craft, the trim-coifed goddess." CantoPosted by Hello

Pound e Ginsberg

Ezra Pound disse a Ginsberg que "the worst mistake I made was that stupid suburban prejudice of anti-Semitism."

Dinastia Song - Mi Fu, "Poema escrito num barco no rio Wu" Posted by Hello

Make it New!

"Então uma Imperatriz fugiu com Chao Kang na sua barriga.
Fou-hi por meio da madeira;
Ching-nong, do fogo; Hoang Ti regido pela terra,
Chan pelo metal.
Tchuen era senhor, como é a água.
CHUN governa
YU cultiva,
A superfície não é suficiente,
de Chang Ti nada é escondido.
Durante anos nada de águas vindas, nenhuma chuva caiu
para o Imperador Tching Tang
grão escasso, preços subindo
de modo que em 1760 Tching Tang abriu a mina de cobre (ante Christum)
fez discos com orifícios quadrados no meio
e deu estes ao povo
com os quais pudessem comprar grão
onde houvesse grão
Os silos ficaram suavizados
7 anos de esterilidade
der im Baluba das Gewitter gemacht hat
Tching orou na montanha
escreveu MAKE IT NEW
em sua banheira
Dia-a-dia faço-o novo
corte a vegatação rasteira
empilhe os cepos
mantenho-os crescendo."

Ezra Pound, Cantos [The Cantos], Canto LII (trad. José Lino Grünewald)

terça-feira, 11 de janeiro de 2005

Nils Holgersson


E aqui vai ele...;-) Posted by Hello

Frans Lanting Posted by Hello

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

Gigantes & Anões

Numa recente campanha publicitária, a Editorial Verbo cita uma frase maravilhosa de Charles de Gaulle sobre o Tintim: "No fundo, o meu único rival internacional é Tintim! Nós somos os pequenos que não nos deixamos apanhar pelos grandes."

Hoje faz anos!


Tintin (ou Tintim) nasceu a 10 de Janeiro de 1929. 76 anos, quase 77... Posted by Hello

domingo, 9 de janeiro de 2005


Chagall, "Aparição" Posted by Hello

A insustentável leveza da nossa memória

O excelente blog Divas & Contrabaixos lembra que, em Portugal, contrariamente à grande maioria dos outros países, não temos o hábito de recordar simbolicamente o fim das duas guerras mundiais. Provavelmente esquecemo-nos que participámos nas duas...sim, nas duas! Na primeira guerra, dos 100.000 portugueses enviados para combater ao lado dos Aliados, 21% morreu ou ficou ferida (já para não falar dos milhares de prisioneiros); na segunda, a nossa intervenção, embora camuflada, foi marcada pela ambiguidade. Ao mesmo tempo que auxiliávamos os ingleses desde 1943, o governo de Salazar não hesitou em declarar luto nacional (?), durante três dias, quando Hitler morreu. Que eu saiba, nos Açores não houve conflitos directos nem vítimas e o projecto de ocupação de Portugal pelas tropas nazis ficou, felizmente para nós, no papel... mas será que tem importância saber se as vítimas foram "nossas" ou dos "outros"?

A Flor que não cicatriza....

Como não temos a tradição do "Remembrance Day", quando nos confrontamos com certos versos do poema de T.S.Eliot (The Waste Land/A Terra Desolada), sentimo-nos perdidos. Ora, o poema foi publicado pela primeira vez na revista londrina Criterion em 1922 e, naturalmente, reflecte sobre a desolação derivada da primeira guerra. Não tenho a menor dúvida que o poeta pensou que a civilização europeia tinha terminado aí...
Sem dúvida que a imagem da terra desolada remete para a cultura celta e para as lendas do Graal. No mito antigo, quando a sacerdotisa das fontes foi brutalmente violada, a terra secou, as árvores estiolaram, a vida definhou. Na lenda do Graal, é a impotência em curar a ferida do Rei Pescador (ou de Amfortas nas versões de Eschenbach e de Wagner do Parzifal/Parsifal) que explica a desolação circundante. Mas estes símbolos são reavaliados por Eliot à luz da guerra feita, agora, à medida "industrial".

"There I saw one I knew, and stopped him, crying: 'Stetson!
You who were with me in the ships at Mylae!
That corpse you planted last year in your garden,
Has it begun to sprout? Will it bloom this year?' " (vv. 69-72)

"Aí vi alguém que conhecia e fi-lo parar, gritando: 'Stetson!
Tu, que estiveste comigo na frota em Mylae!
Aquele cadáver que plantaste o ano passado no teu jardim
Já começou a despontar? Será que dá flor este ano?' " (vv.69-72)

Milae ou Milazza é o local na Sicília que identifica a batalha naval em que Roma triunfa sobre Cartago numa das guerras púnicas. Como é evidente, simboliza a génese da civilização ocidental quando Roma dá os primeiros passos para se tornar na potência dominante no mundo ocidental. A primeira guerra indica, pelo contrário, o fim dessa mesma civilização.
A questão colocada no poema a esse tal Stetson é propositadamente escrita para nos chocar. Por um lado, baseia-se na crença amplamente divulgada (e comemorada no Remembrance Day) que os campos da morte dão lugar a campos de flores. Mas, por outro, Eliot quer mostrar-nos como a crença básica da nossa civilização na ressurreição, na regeneração da vida, se perdeu. Esta crença era básica, pois fundava-se na ideia de que a morte não tinha a última palavra...

O Remembrance Day explica, em parte, os versos iniciais do poema:

"April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers." (vv. 1-7)

“Abril é o mais cruel dos meses, gerando
Lilases na terra morta, misturando
A memória e o desejo, agitando
Raízes inertes com a chuva da Primavera.
O Inverno manteve-nos quentes, cobrindo
A terra com a neve do esquecimento, alimentando
Um pouco de vida com tubérculos secos.” (vv.1-7)

A Primavera traz agora a lembrança daqueles que morreram, recordando-nos o colapso de uma cultura. O passado (a memória) e o futuro (desejo) confundem-se. No entanto, o poema fala-nos de lilases e não de papoilas :-) A explicação é-nos dado por Harold Bloom. Eliot alude igualmente, através dos lilases, a um poema de Walt Whitman
sobre a morte de Lincoln, When Lilacs Last in the Dooryard Bloomed. Neste poema sobre Whitman expressa a ideia de uma ferida aberta, com o assassínio de Lincoln ("O Captain! My Captain!") em 1865, ferida que eclode através do retorno cíclico da flor de lilás. Mas, a flor já não cicatriza a ferida, antes a acentua!

"When lilacs last in the dooryard bloom'd,
And the great star early droop'd iun the western sky in the night,
I mourn'd, and yet shall mourn with ever-returning spring."

Por que razão falar do dia 11 de Novembro neste dia luminoso de 9 de Janeiro? Para lá deste Domingo radioso, a solução do mistério segue já a seguir... Posted by Hello

O Dia da Papoila

Nestes dias invernosos, mas plenos de Sol, lembremo-nos do Verão de São Martinho. No dia 11 de Novembro, é habitual comemorar-se o dia desse santo. A lenda é conhecida: num dia chuvoso e frio, um soldado húngaro (Martinho) compadece-se de um pedinte e com a espada rasga o seu manto em duas partes, oferecendo uma delas a quem tanto dela precisava. Conta a lenda que o Sol brilhou nesse momento e se pôs um dia de Verão inusitado. Mas, no dia 11 de Novembro, comemora-se igualmente o "Remembrance Day", o dia em que terminou a primeira guerra mundial. O armistício foi assinado às 5 horas da manhã entre os aliados e os alemães, mas só às 11 horas os tiros terminaram. E, assim, no dia 11 do décimo primeiro mês, pelas 11 horas, comemora-se o final do primeiro conflito mundial. Na grande maioria dos países de língua inglesa (mas também em França, na Bélgica e no Canadá), este dia (ou o Domingo mais próximo) é celebrado com dois minutos de silêncio após aquela hora simbólica. Faz igualmente parte da tradição, as pessoas usarem à lapela uma papoila, na base da crença segundo a qual os campos de morte da Flandres se encheram de papoilas após o cessar das hostilidades.

Hiroshige Posted by Hello

Ricardo Coração de Leão

Quando estava a fazer compras num centro comercial, vejo um miúdo apontar para o livro do guarda-redes do Sporting (Ricardo) e perguntar ao pai: "Aquele não é o homem que salvou Portugal?" Achei melhor nem ouvir a resposta...

sábado, 8 de janeiro de 2005

Two roads diverged in a wood and I...

"A primeira de todas as tarefas de cada homem é a actualização das suas possibilidades únicas (...) e não a repetição de algo que um outro, nem que seja o maior de todos, tenha já consumado. É esta a ideia expressa pelo rabi Zusya pouco antes de morrer: "No outro mundo, não me será perguntado: "Porque não foste Moisés?" Ser-me-á perguntado: "Porque não foste Zusya?"
Martin Buber

O Terceiro Mandamento

Quem não fica triste quando o Terceiro "Mandamento" (Instrução; Palavra) é posto em causa com a finalidade de se justificar determinada causa social ou política? Esta história é exemplar...

Recentemente, uma célebre animadora de rádio dos EUA afirmou que a homossexualidade era uma perversão: "É o que diz a Bíblia no livro do Levítico, capítulo 18, versículo 22: "Tu não te deitarás com um homem como te deitarias com uma mulher: seria uma abominação" - "A Bíblia refere assim a questão. Ponto final", afirmou ela.
Alguns dias mais tarde, um ouvinte dirigiu-lhe uma carta aberta que dizia:
« Obrigado por colocar tanto fervor na educação das pessoas pela Lei de Deus. Aprendo muito ouvindo o seu programa e procuro que as pessoas à minha volta a escutem também. No entanto, eu preciso de alguns conselhos quanto a outras leis bíblicas.
Por exemplo, eu gostaria de vender a minha filha como serva, tal como nos é indicado no Livro do Êxodo, capítulo 21, versículo 7. Na sua opinião, qual seria o melhor preço?
O Levítico também, no capítulo 25, versículo 44, ensina que posso possuir escravos, homens ou mulheres, na condição que eles sejam comprados em nações vizinhas. Um amigo meu afirma que isto é aplicável aos mexicanos, mas não aos canadianos. Poderia a senhora esclarecer-me sobre este ponto? Por que é que eu não posso possuir escravos canadianos?
Tenho um vizinho que trabalha ao Sábado. O Livro dos Números, capítulo 15, versículo 36, diz claramente que ele deve ser condenado à morte. Sou obrigado a matá-lo eu mesmo? Poderia a senhora sossegar-me de alguma forma neste tipo de situação constrangedora?
Outra coisa: o Levítico, capítulo 21, versículo 18, diz que não podemos aproximar-nos do altar de Deus se tivermos problemas de visão. Eu preciso de óculos para ler. A minha acuidade visual teria de ser de 100%? Seria possível rever esta exigência no sentido de baixarem o limite?
Um último conselho. O meu tio não respeita o que diz o Levítico, capítulo 19, versículo 19, plantando dois tipos de culturas diferentes no mesmo campo, da mesma forma que a sua esposa usa roupas feitas de diferentes tecidos: algodão e polyester. Além disso, ele passa os seus dias a maldizer e a blasfemar. Será necessário ir até ao fim do processo embaraçoso que é reunir todos os habitantes da aldeia para lapidar o meu tio e a minha tia, como prescrito no Levítico, capítulo 24, versículos 10 a 16? Não se poderia antes queimá-los vivos após uma simples reunião familiar privada, como se faz com aqueles que dormem com parentes próximos, tal como aparece indicado nesse livro sagrado, capítulo 20, versículo 14?
Confio plenamente na sua ajuda."

Chagall - "A Expulsão do Paraíso" Posted by Hello

"O Paraíso" de Chagall (também no Albertina) Posted by Hello

Chagall no Albertina


Até 28 de Março deste ano, encontra-se no Museu Albertina (Viena) uma exposição de obras Chagall sobre mitos bíblicos. São cerca de 150 quadros e aguarelas datados dos anos 50 e 60. Neste quadro, encontramos as figuras de David e Betsabé, os pais de Salomão. Posted by Hello

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

Mayerling em cinema


A tragédia de Mayerling deu origem a imensos filmes. Um dos mais famosos, embora talvez não o melhor, foi realizado por Terence Young em 1968. No papel do príncipe herdeiro (Rudolf) encontramos Omar Sharif; como Marie Vetsera (a amante de Rudof), Catherine Deneuve; como Imperador Franz Joseph, James Mason; como Elizabeth ou Sissi, Ava Gardner e, finalmente, como Marie Larisch, Geneviève Page.  Posted by Hello

Marie Larish


Marie Larish das Casas Reais de Wittelsbach e de Wallersee. T.S. Eliot conheceu-a provavelmente na viagem que fez a Munique em 1911. A condessa da Baviera, Marie Larisch, era prima do arquiduque Rudolf, pelo lado da sua tia, a Imperatriz Sissi. O escândalo da morte do príncipe herdeiro e da sua amante (Marie Vetsera) exigia um bode expiatório e ela foi responsabilizada por ter propiciado aquela relação ilegítima. Durante alguns anos viveu na miséria, apenas sobrevivendo através de trabalhos de criada em Berlim. Posted by Hello

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

A Tragédia de Mayerling

Uma das passagens mais enigmáticas do poema The Waste Land é inegavelmente a seguinte:

"And when we were children, staying at the arch-duke's,
My cousin's, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.
In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in the winter." (vv.13-18)

"E quando éramos pequenos e estávamos em casa do arquiduque,
Meu primo, ele levou-me num trenó.
E eu estava assustado. Disse, Marie,
Marie, segura-te bem. E fomos por ali abaixo.
Nas montanhas, aí sim, sentimo-nos livres.
Leio quase toda a noite e vou para o sul no Inverno.” (vv.13-18)

Durante muito tempo, pensei que o arquiduque, referido nos versos, era Franz Ferdinand, cujo assassinato foi o pretexto da primeira guerra mundial. Ora, cada vez mais estou convencido que o arquiduque em causa é Rudolf, o príncipe herdeiro do Império Austro-húngaro, filho de Franz Joseph e Elizabeth (Sissi). Por sua vez, hesito na identidade desta "Marie, Marie": tanto pode ser a condessa Marie Larisch ou Marie Vetsera, a jovem de dezassete anos, a amante de Rudolf. Rudolf e Marie Vetsera tiveram uma ligação secreta que terminou tragicamente num pavilhão de caça numa montanha, na zona de Mayerling, perto de Viena. Ainda hoje se suspeita que eles não se suicidaram, mas que foram brutalmente assassinados. Marie Larisch, da família real, teve apenas como papel ser a mensageira (a "go-between") entre os amantes. Rudolf tinha uma formação liberal e se ascendesse ao trono provavelmente a primeira guerra mundial nunca teria acontecido. Em volta desta família, existem, na verdade, crimes bem estranhos, desde a morte misteriosa do rei Ludwig II da Baviera até ao assassínio da mãe de Rudof, a Kaiserin Sissi, junto ao lago Leman (nome francês do lago de Genebra que Eliot conheceu da pior maneira quando esteve internado por abulia; "junto às águas de Leman sentei-me e chorei"...).
O que está claro é o sentido do último verso (18): "Leio quase toda a noite e vou para o sul no Inverno". Só quem ainda não sentiu a velhice é que não percebe o sentido trivial desta frase... Neste caso, não precisamos de nenhum Poirot :-)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

Hiroshige


Hiroshige (1797-1858), pintor do período Edo (Tóquio), discípulo de Hokusai Posted by Hello

La Belle Dame Sans Merci

"VII.
"She found me roots of relish sweet,
And honey wild, and manna dew,
And sure in language strange she said—
“I love thee true.”

VIII.
She took me to her elfin grot,
And there she wept, and sigh’d fill sore,
And there I shut her wild wild eyes
With kisses four.

IX.
And there she lulled me asleep,
And there I dream’d—Ah! woe betide!
The latest dream I ever dream’d
On the cold hill’s side.

X.
I saw pale kings and princes too,
Pale warriors, death-pale were they all;
They cried—“La Belle Dame sans Merci
Hath thee in thrall!”

XI.
I saw their starved lips in the gloam,
With horrid warning gaped wide,
And I awoke and found me here,
On the cold hill’s side.

XII.
And this is why I sojourn here,
Alone and palely loitering,
Though the sedge is wither’d from the lake,
And no birds sing."

John Keats, La Belle Dame Sans Merci

Waterhouse e Keats


Nova pintura de Waterhouse sobre um poema de Keats - "La Belle Dame Sans Merci" Posted by Hello

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

O Canto dos Pássaros

Segundo a Euronews, a grande maioria dos habitantes de Andaman e Nicobar conseguiu sobreviver à fúria do tsunami. Estas ilhas ficam situadas a curta distância de Sumatra da Indonésia, no golfo de Bengala. Apesar destas ilhas pertencerem à Índia, são habitadas por populações aborígenes que recusam a sua inserção na nossa "moderna civilização". E foi a sorte deles... quando "escutaram" o silêncio dos pássaros antes da catástrofe, fugiram para as montanhas. Como nos diz Lévi-Strauss (La Pensée Sauvage), o nosso pensamento de "engenheiro" não sabe nada do mundo natural porque a cultura que o envolve é abstracta e vazia.

Ficção e Identidade

"That is ourselves we are encountering whenever we invent fictions."
Frank Kermode

Convicção

"The best lack all conviction while the worst are full of passionate intensity"
W.B.Yates

segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

A Ecologia e a Civilização de Cimento


Fotografia tirada recentemente em Goa (Dezembro de 2004) por Filipe Távora. Aldo Leopold é o "pai da ética ambiental", autor de uma das obras fundamentais do século XX, Sand County Almanac. Era caçador desportivo e, um dia, ao matar uma loba, apercebeu-se do olhar desta última antes de morrer. O choque desta experiência, que não se deixa traduzir em palavras, fê-lo reconsiderar toda a sua vida, passando a defender uma ética centrada no valor intrínseco dos ecossistemas. Assim nasceu realmente, na cultura ocidental, a ecologia...A catástrofe de 26 de Dezembro - talvez a primeira catástrofe natural a ser "vivida globalmente" - vai ter certamente consequências na nossa relação com a Natureza. Duas hipóteses se levantam: a primeira consistirá em refugiarmo-nos, cada vez mais, em "bunkers de cimento", acelerando o ritmo da criação de uma "civilização urbana planetária"; a segunda, pelo contrário, procurará corrigir os efeitos nocivos da intervenção humana (aquecimento global; exploração desenfreada do petróleo) que estão a ter repercussões nefastas nos frágeis equilíbrios da crosta terrestre. Receio que seja a primeira hipótese a triunfar... se há algo que mais receamos é a nossa mãe-natureza, pois ela está sempre a lembrar-nos que, afinal, somos mortais. Posted by Hello

domingo, 2 de janeiro de 2005

Deus e o Mundo (2)

"É certamente correcto afirmar: a consciência é a voz de Deus"
Wittgenstein, Tagebücher (1916)

Antony Gormley Posted by Hello

sábado, 1 de janeiro de 2005

Bom Ano


 Posted by Hello