Embora a origem do impulso artístico seja, ainda hoje, motivo de grande controvérsia - com efeito, muitas peças com centenas de milhares de anos podem ter sido o resultado de efeitos geológicos e não de acção intencional -, o mesmo já não se pode dizer das primeiras criações artísticas do chamado homem moderno (homo sapiens sapiens). A sua grande maioria foi encontrada no centro da Europa. Um dos primeiros artefactos - com quase 30.000 anos - foi descoberta numa zona da actual República Checa. Trata-se da Vénus of Dolní Věstonice.
Com uma data aproximada, mas provavelmente mais recente, descobrimos a célebre Vénus austríaca de Willendorf
ou ainda a surpreendente Vénus de Brassempouy (descoberta em França e que ainda hoje é objecto de controvérsia).
Para quem tenha algum interesse em questões arqueológicas, recomendo o site simpático de Don. Há uma questão óbvia associada a estas figurinhas (as suas dimensões pouco ultrapassam os 10 cm). Por que razão povos caçadores e recolectores - para quem o Céu ou os animais deveriam ser o seu ponto de referência - parecem totalmente fascinados por figuras que associamos ao culto da "Terra Mãe"? Culto óbvio da fertilidade e do feminino? Ou apenas um acaso? Afinal as pinturas das grutas de Chauvet são coetâneas e as representações são bem diferentes...
Se tiver dificuldades, clique aqui or in Chinese 点击 这里
Ainda hoje fico espantado com a modernidade de algumas músicas dos Beatles. Recordações de uma conversa ouvida, mas bem antiga: "como é possível, o miúdo gostar deste tipo de música?". Resposta: "olhe que lá em Londres, a BBC passa todos os dias à mesma hora esta canção (A Day in the Life)".
"Celebramos cada momento dos nossos encontros como epifanias, apenas nós os dois em todo o mundo. Audaciosa e mais leve do que a asa de um pássaro, pela escada abaixo, corrias com uma vertigem através do lilás húmido até ao teu reino escondido atrás do espelho.
Quando a noite chegava, a graça obsequiava-me, as portas do santuários eram abertas. Brilhando na noite, a tua nudez inclinava-se suavemente; acordando, dizia: "Bendita sejas!" Era ousada a minha bênção: tu dormias. E o lilás inclinava-se para ti através da mesa para cobrir as tuas pálpebras com o azul universal; as tuas pálpebras pintadas de azul estavam calmas e a tua mão era quente.
E no cristal vi o pulsar dos rios, montes fumegando e mares bruxuleantes; segurando na tua mão aquela esfera cristal, adormecias no teu trono. E - Deus seja louvado! - tu eras minha. Acordando, tu transformavas o vocabulário corrente dos humanos até a sua linguagem ser plena e a palavra "tu" revelar novos significados: significava rainha. Tudo no mundo era diferente, mesmo as coisas mais simples - o jarro, a bacia - enquanto a água sólida, estratificada, fluía entre nós, como uma sentinela.
Fomos levados sabe-se lá para onde. Diante de nós foi aberta, como numa miragem, cidades de encanto construídas, a hortelã espalhava-se aos nossos pés, pássaros viajam connosco, peixes saudavam-nos do rio, os céus aos nossos olhos se rasgavam...
Enquanto, atrás de nós, todo o tempo se tornava destino, como um louco brandindo uma lâmina em riste."
Poema de Arseny Tarkovsky (o pai de Tarkovsky, já citado em Janeiro de 2005; a voz que se ouve no filme é a do próprio pai do realizador). Ainda não me foi possível encontrar a imagem que queria do Stalker, conforme me pediu a Helena, mas a referência feita pela Carocha em "Espelhos" levou-me a fazer este novo.
Quando estava ontem no bar Moinho Dom Quixote, decidi experimentar um dos meus bolos favoritos: Apfelstrudel (literalmente um "turbilhão de maçã"). Volto-me para a empregada e peço-lhe: "pode-me trazer um Apfelstrudel quente?". Ela pergunta-me (melhor dizendo, o que eu julgo ouvir): "quer congelado?" Fico em pânico e respondo meio apressado, meio apatetado: "não, não..." ( o "não" é geralmente, nesta situações, mais prudente). Claro que depois me desmanchei a rir com a minha patetice crónica...
Um óptimo sítio para passar o dia. Claro que é o bar Moinho Dom Quixote e fica ali para a Azóia, mesmo perto do Cabo da Roca. E tem uma vantagem: não é possível encontrarmos naquele local uma tal Assunção Cabral do jornal Sol...
Saiu finalmente em DVD o último filme de M. Night Shyamalan, Lady in the Water. É inegavelmente o seu filme mais controverso, amado por uns, odiado por outros. E a razão de tanta controvérsia é simples de explicar. O realizador decidiu intencionalmente apostar numa situação absurda, a saber, cruzar literalmente dois mundos antagónicos: o mundo mágico e infantil, onde existem ninfas do mar (narfs) e águias redentoras, e o mundo mais banal e cinzento da nossa vida quotidiana. Encontram uma crítica interessante ao filme no blog Mulholland drive. A Apple disponibilizou alguns trailers desta obra cinematográfica. Para os ver clique aqui.
O blog Botinhas, inspirado pelo seu homónimo latino (tosse...), decidiu sugerir que eu comprasse este modelo de cubo Rubik. Em vez das 6 cores tradicionais, apenas uma: um branco omnipresente. Diga-se que tem algumas vantagens: posso assim candidatar-me às "olimpíadas Rubik" e vencê-las num piscar de olhos (talvez até em menos tempo...); é esteticamente mais bonito do que os tradicionais (e fica muito bem junto aos Macs e iPods); por outro lado, como diz a apresentação deste modelo, permite-nos reflectir sobre o vazio constitutivo de todas as entidades, assim como dotar-nos da responsabilidade moral de escolhermos a nossa própria solução para os problemas da vida. Acrescentaria ainda um ponto: se a realidade se reduzisse a uma única instância, o que se poderia fazer com ela? Será que a nossa tendência natural para pensarmos que a unicidade é a chave racional de todas as questões - que nos leva, por exemplo, a privilegiar instintivamente o monoteísmo em face do politeísmo pagão - é uma crença justificada? E as soluções alternativas: o que se pode fazer com um Rubik a duas cores (estilo sequência digital 0/1 ou, na sua vertente oriental, yin e yang)? E com quatro cores (por exemplo com os quatro nucleótidos da sequência do ADN, a saber, Guanina, Adenina, Timina, Citosina - mnenmónica, GATACA)? As combinações podem ser mesmo muitas, mas apenas são úteis enquanto instruções de um código... Daí que a solução de Espinosa ainda me pareça a mais racional e a mais feliz: uma única substância e um número infinito de atributos. Daí ficar à espera de um Rubik com um número infinito de cores... mas, para já, não me importava de ter um assim ;-) Ao que parece custa apenas algo equivalente a uns 20 euros....
Cena do filme autobiográfico de Tarkovsky, Espelho (Zerkalo) em que, num primeiro momento, se retratam momentos cruciais da infância do personagem central (Alexei), assim como um estranho sonho sobre o desabar simbólico da casa materna; numa segunda parte, Alexei fala ao telefone com a mãe (Maria). Constante jogo de espelhos, em que o mais evidente é a "dupla imagem" da mãe (na juventude e na velhice). Por sua vez, o reflexo de Maria é indissociável da mulher (Natália) de Alexei. O Espelho é, sem dúvida, o filme mais poético de Tarkovsky e se precisar de um guião nada melhor do que este: Mirror
Podem agora ver em vídeo a entrevista de Susan Neiman citada no último post. Cliquem aqui. Quando acederem ao site, basta clicarem no "watch the video".
O blog Kitschnet citou, no seu último post (9 de Fevereiro), o psicólogo norte-americano Joshua D. Green e a sua reinterpretação neuroética do problema filosófico do "Trolley" ("carro eléctrico", numa tradução livre). Esse problema foi formulado, pela primeira vez, pela filósofa britânica Philippa Foot no seu artigo "The Problem of Abortion and the Doctrine of the Double Effect" (Virtues and Vices, Oxford, Blackwell, 1978). A questão foi retomada intensivamente pela filósofa norte-americana do MIT Judith Jarvis Thomson. Qual é o problema?
Um carro eléctrico move-se descontrolado numa linha. No seu caminho estão cinco pessoas a trabalhar e essas pessoas vão certamente morrer. Só que você, no limite, pode desviar o carro eléctico para uma outra linha onde se encontra apenas uma pessoa. Acha que deve desviar o carro eléctrico?
Utilizemos uma ilustração de Joshua Green: A grande maioria das pessoas não hesitaria em responder que sim. Agora imagine-se a variante pensada por Judith Jarvis Thompson:
Um carro eléctrico move-se descontroladamente em direcção a cinco pessoas. Você está numa ponte por cima da linha onde se encontra igualmente outra pessoa, bem gordinha. A única hipótese razoável de parar o carro eléctrico é empurrar o gordo de forma a que ele caia na linha, abrandando o movimento do carro e salvando as outras cinco pessoas. Acha que deve empurrá-lo e, assim, matá-lo?
Novamente uma imagem de Joshua Green: Aqui as posições dividem-se. Umas pessoas dizem que sim; a maioria diz que não. E, no entanto, o problema ético é o mesmo. A única diferença é que, no primeiro caso, a acção é feita à distância, sem contacto com a vítima; no segundo caso, pode-se dizer que há um "toque pessoal"... Através de várias experiências, Joshua Green mostrou que as áreas do cérebro que se activam, no primeiro caso, são diferentes das do segundo. E a razão é simples: a decisão no segundo caso desperta emoções muito mais fortes do que no primeiro. Poder-se-á concluir que as nossas decisões morais não são habitualmente racionais (apesar de nós pensarmos que sim), mas apenas fundadas nos diferentes contextos afectivos? E, se é assim, não deveriam basear-se em critérios éticos racionais? Mas observemos uma terceira variante do caso, descrita por Philippa Foot:
Um médico pode salvar cinco doentes terminais transplantando cinco órgãos de uma pessoa saudável. Pode fazê-lo, sem o consentimento desta última?
Em termos racionais, não vejo grande diferença em relação aos dois casos anteriores, mas quase todos nós rejeitaríamos moralmente esta hipótese... Como sair deste impasse? Embora Joshua Green pareça, no limite, inclinar-se para uma solução utilitarista, relembro a intenção de Philippa Foot: mostrar que as soluções utilitaristas (uma acção é correcta quando aumenta o bem para o maior número possível de pessoas) e dentológicas (uma acção é correcta quando respeita a dignidade pessoal) são sempre soluções possíveis, mas limitadas. Segundo ela, precisamos de uma nova teoria ética, a que ela designou, na linha de Anscombe, ética das virtudes.
Se tiver dificuldades em ver/ouvir clique aqui "Out here in the fields I fight for my meals I get my back into my living I don't need to fight To prove I'm right I don't need to be forgiven Don't cry Don't raise your eye It's only teenage wasteland Sally ,take my hand Travel south crossland Put out the fire Don't look past my shoulder The exodus is here The happy ones are near Let's get together Before we get much older Teenage wasteland It's only teenage wasteland Teenage wasteland Oh, oh Teenage wasteland They're all wasted!"
Baba O'Riley, música do conjunto britânico The Who. O título da canção baseia-se no filósofo indiano Meher Baba e no compositor minimalista Terry Riley (o autor do In C). O poema desta canção seria impensável sem a obra The Waste Land de T.S. Eliot, e o filme é uma homenagem à série Dr.House e ao actor Hugh Laurie.
Para obter uma resolução de alta definição desta imagem clique aqui. By the way, alguém sabe algo sobre a mahapralaya (grande dissolução)? Já tenho a terra desolada, o fogo da guerra e a flor de lótus no ventre da mulher de Abhimanyu. Mas falta-me o passo anterior: o dilúvio. Será que a história de Manu (o Noé indiano) é suficiente? "The little fish asked the king to save it, and kept growing bigger and bigger. It also informed the King of a huge flood which would occur soon. The King builds a huge boat, which houses the fish and his family and other seeds of animals to repopulate the earth." No Anel de Wagner, tudo é claro, desde o fogo do Valhala até às águas do Reno.
Clique na imagem para a ver melhor Quadro de Agnolo Bronzino, pintor florentino (1503-1572), onde se retrata uma das cenas mais intrigantes do Novo Testamento. Quando Jesus ressuscita, Maria Madalena aproxima-se dele, mas Cristo diz-lhe: "não me toques" (Jo, 20:17). Esta frase é bem intrigante, pois antecede o momento em que São Tomé toca as suas feridas ("ver para crer"). Deste modo, muitos tradutores, preferem dar um sentido figurado à frase e traduzi-la por "não me retenhas". Pensando bem, diria que a emenda é pior do que o soneto... Na pintura renascentista, o noli me tangere tornou-se um tema privilegiado. Já agora, Agnolo Bronzino é conhecido como "bronzino" por causa do seu semblante carregado (de bronze). Certamente deveria ter muitas preocupações na corte dos Médici e, deste modo, ficou com coração de bronze (talvez o mesmo do Príncipe Feliz de Oscar Wilde). Mas essa é uma outra história...
P.S. Se não conseguir ouvir, clique aqui Obrigado a Divas & Contrabaixos pela referência. Infelizmente o que vão ver é um trailer.... mas que nos faz recordar um dos filmes mais notáveis de sempre. Recordo-me, ainda, da irritação que o filme causou quando foi estreado em Portugal, com acusações mais ou menos veladas de homossexualidade... que eu me tenha apercebido o filme nem aflora esse tema. Podem ver mais cenas do filme no blog referido.
Erik Satie, Gymnopédie nº1. By the way, deduzo que o autor do vídeo deseja o vosso voto no YouTube. Embora não seja uma interpretação brilhante, permite a qualquer um de nós reconstituir facilmente a música. Mas se tiver dificuldades pode ir buscar a pauta aqui.
Escultura magnífica criada por Ron Mueck. Depois de Gerhard Richter na pintura, o hiper-realismo parece ser a nova lei dominante nas artes plásticas. Não por amor à realidade ou por ideais neo-realistas, mas porque arte se quer indistinguível dos objectos e dos seres quotidianos.
p.s. se não conseguir ouvir, clique aqui Vídeo no qual o neto de Gandhi explica, em inglês, o sentido da palavra que define a filosofia do seu avô: satyagraha. Numa primeira análise, tanto a mentira como a verdade são libertadoras; se não nos fosse possível mentir não criaríamos o espaço da ficção na qual a nossa alma pode voar; mas, no domínio da realidade, apenas a verdade nos liberta. "Sat cit ananda", dizia o filósofo indiano Shankara (IX dC): "ser - consciência - felicidade". Só a percepção da realidade, tal como ela é, mesmo que seja dolorosa, nos permite atingir aquilo que tantas vezes chamamos "felicidade" (ananda). Mas à custa de tanta mentira aos outros e, sobretudo a nós próprios, não correremos o risco de confundir a verdade com a mentira? Daí que Gandhi nos fale sobretudo de uma busca (agraha)... bem, no Ocidente, há um termos muito simples para esta mesma atitude e chama-se "filosofia".
Este fotógrafo deve estar mesmo fascinado por algum pormenor do Grande Canyon (Arizona). Como é que ele foi ali parar? Terá ido lá ter como no filme Gerry (by the way, com música de Arvo Paert)? E como é que ele vai sair? p.s. reflexão filosófica: o sentido da vida nunca pode ser a própria vida (em termos de auto-sobrevivência) (continua no post anterior)
E, assim, chegou são e salvo utilizando apenas uma mão. (claro que tudo isto pode ser um montagem fotográfica... mas quem é que pode agora assegurar que uma fotografia é genuína? A mesma dúvida não se coloca em relação à loucura.. ou à psicose, se preferirem o termo).
Quer ir no Expresso do Oriente a Veneza? Apenas precisa de ter o programa QuickTime instalado. Clique Veneza. Quando chegar lá, clique com o botão do seu mouse na imagem e, sem o largar, dê uma voltas em todas as direcções...com um pouco de imaginação, até pode assistir à exposição de pintura de Lucian Freud (veja bem a ponte).
Os Cocteau Twins transmitem-me sempre uma sensação muito estranha e ambivalente: por um lado, fico totalmente contagiado pela alegria infinita que sobressai das suas canções; mas, por outro, não sou capaz de ouvi-los sem uma enorme sensação interior de perda e de angústia. Encontram a canção "Tishbite" no CD dos Cocteau Twins Milk & Kisses. E vale a pena ouvi-la no CD porque a qualidade do som deste vídeo não é a melhor...
Soube através do blog Divas & Contrabaixos que uma jornalista portuguesa (Rute Monteiro) está sequestrada no Libano desde Outubro de 2006 e que ninguém, nem mesmo os media, prestaram a menor atenção... Era importante, no mínimo, confirmar a notícia do Freelance.
Loreena McKennit, "Mummers Dance" (ainda gostaria que me explicassem por que razão uma cultura tão centrada em árvores nos deu o alfabeto das nossas paixões...)
On the floating, shipless oceans I did all my best to smile til your singing eyes and fingers drew me loving into your eyes. And you sang "Sail to me, sail to me; Let me enfold you." Here I am, here I am waiting to hold you. Did I dream you dreamed about me? Were you here when I was full sail? Now my foolish boat is leaning, broken lovelorn on your rocks. For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow." Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow. I'm as puzzled as a newborn child. I'm as riddled as the tide. Should I stand amid the breakers? Or shall I lie with death my bride? Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you." "Here I am. Here I am, waiting to hold you."
"Song to the Siren", This Mortal Coil (It will end in tears)
O blog A Ilha que nunca existiu citou-me, melhor dizendo, citou um belo poema de amor de Yeats já referido por mim. Lembrei-me, então, de uma bela canção de amor de tempos idos. O poema não é tão belo como o mencionado de W.B.Yeats, mas o conjunto (música, voz e poema) não deixa de ser excelente.
Rakim dos Dead Can Dance . Deve estar a fazer uns 10 anos em que apresentei este vídeo em todo o seu esplendor na chamada sala Vídeo I dirigida pelo sr.Francisco Roxo. P.S. se tiver dificuldades em ouvir clique aqui
Agora que terminou a minha série cómica favorita (Frasier), lá andei em busca de uma outra sitcom que tivesse uma função psicológica análoga... E encontrei-a. Apesar de ser uma "comédia-trágica", a série Dr.House, transmitida pelos canais Fox e TVI, é excelente. Dr.Gregory House é um comediante inglês Hugh Laurie que pertence àquela geração de ouro do teatro britânico na qual Emma Thompson é provavelmente o nome mais conhecido. Enquanto personagem, o Dr.Gregory House é um espanto: omnisciente, omnipotente e sumamente bom. Longe de ser cínico, é essencialmente sarcástico (o que é algo completamente diferente). E, para lá, de uma sitcom trágica, engloba tanto a vertente do case study como ainda a dimensão do "romance policial". Só que o criminoso é uma bactéria mesmo escondida atrás de si...um modo de dizer! p.s. btw, alguém sabe como é que se consegue gravar o canal Fox com imagem e som (imagem ainda consigo)? Da TV Cabo ainda não consegui resposta...
A música é dos Dead Can Dance e as imagens são naturalmente do filme Baraka, tantas vezes aqui aflorado. P.S. se tiver dificuldades em ouvir clique aqui
Fotografia de Tom Allwood. Estas duas dançarinas de Jodphur no estado de Rajastan, ou Rajastão, na Índia, tornam-se, através da arte fotográfica de Tom Allwood, um puro jogo de pontos cromáticos. Afinal, Jodhpur é conhecida na Índia como a cidade do Sol.
Keith Jarrett um dos melhores compositores e intérpretes de sempre tanto de jazz como de música clássica (de Bach a Arvo Pärt). E não fui eu perder o concerto dele no CCB (problema já aqui aflorado)... P.S. Mas não percam o tema Eternity de Karaindrou no blog Kitschnet . P.S. se tiver dificuldades em ouvir clique aqui
Nos próximos dias 11 e 12 de Janeiro, realiza-se na Faculdade de Letras de Lisboa um Colóquio Internacional dedicado à obra e pensamento de Hannah Arendt, um dos nomes mais importantes da filosofia contemporânea. Para mais informações, clicar aqui.
Já pode fazer a sua pré-encomenda do último livro de Harry Potter (ao que parece o sétimo e último livro sai no dia 7/07/07). Para já, a discussão é grande sobre o significado do título Harry Potter and the Deathly Hallows . Vai finalmente revelar-se o final que foi escrito, se não estou em erro, em 1999. Goste-se, ou não, de J.K.Rowling, há um mérito que ninguém lhe tira: pôs literalmente todo o mundo a ler.
Podem escutar no blog Kitschnet uma bela composição do músico Anouar Brahem, intitulada Halfaouine. Esta música foi editada no último CD de Anouar Brahem , Le Voyage de Sahar (ECM).
Gnod é um site divertido e interessante para descobrirmos novas afinidades electivas em termos musicais. Não deixem de clicar no image-map (on the map)... Apenas se lamenta que tudo se reduza a "bandas" .) E assim começamos a pensar na banda de Beethoven, de Mozart, de Stravinsky ou de Schumann. Mas o Gnod não se esgota só na música. Se clicar neste link acede ao Gnod total, onde pode ampliar igualmente os seus gostos literários ou cinematográficos.
Jan Garbarek é um músico norueguês que cruza, como ninguém, o jazz, a world music e o estilo clássico. Esta composição é o resultado do seu trabalho com um músico islâmico paquistanês, Ustad Fateh Ali Khan. O que é engraçado (para lá da força musical da composição) é que este cruzamento entre o Ocidente e o Islão se dá sob o signo da Índia ("Flavour of India")... Lembro-me de um dia entrar na Livraria Barata e ouvir como música de fundo o início dos Ritos de Garbarek que ainda não conhecia. Ainda tendo um "colapso" de entusiasmo e de alegria...
Nasrudin ou Nasreddin é uma personagem fabulosa do imaginário islâmico. Hoje li uma uma típica história em que ele, como sempre, é o personagem central. E era uma vez Narudin sentado no chão junto a uma enorme vasilha contendo grãos de pimenta. Grão após grão, tirava um, saboreava-o e deitava-o fora, lamentando-se. Os amigos de Nasrudin perguntaram-lhe o que é que ele procurava. E ele respondeu: "procuro um que seja doce." Esta história dá-nos duas simples lições sobre o desejo: a repetição infernal do mesmo gesto que, como sempre, apenas provoca mais e mais sofrimento. Mas, por outro lado, permite-nos compreender a razão de ser de um comportamento tão insano: a doçura. Tudo isto me faz lembrar uma velha história de Rasrudin, já aqui contada: um dia, os seus amigos encontraram-no junto ao poste luminoso procurando afanosamente uma chave perdida. Um deles perguntou a Rasrudin: "mas tens mesmo a certeza que foi aqui que a perdeste?" "Eu perdi a chave na minha casa" respondeu Rasrudin. E todos os seus amigos lhe gritaram: "mas então por que razão estás aqui, feito parvo?" E a resposta: "porque aqui tenho mais luz".
Um dos momentos decisivos da obra de Eleni Karaindrou foi a composição da música do filme, O Olhar de Ulisses, do mesmo realizador de Eternidade e um Dia. Karaindrou é apenas um dos génios musicais "descobertos" por Manfred Eicher da ECM. Nomes como Jan Garbarek, Keith Jarrett, Arvo Pärt, Steve Reich, John Adams, Anouar Brahem, Kim Kashkashian, Hilliard Ensemble, são exemplos paradigmáticos de uma editora alemã que colocou como divisa atingir o "mais belo som a seguir ao silêncio" (The Most Beautiful Sound Next To Silence).
Eleni Karaindrou é uma compositora grega cujo estilo transcende qualquer classificação. A sua música é um exemplo brilhante do novo tipo de sonoridade visado pela ECM. Um aviso: este vídeo é certamente "pirata" com efeitos óbvios na pobre qualidade da imagem e do som. E apesar disso é difícil não ficarmos rendidos ao tema "À beira-mar", a segunda composição do filme "Eternidade e um dia" do realizador Theo Angelopoulos
Goste-se, ou não, da escritora Agatha Christie, não acredito que exista alguém que nunca tenha ficado fascinado por uma das suas histórias. É difícil dizer qual das obras me tocou mais...Death on the Nile, Ten Little Indians/And Then There Were None , Murder of Roger Acroyd , entre tantos livros. Impressionaram-me igualmente os seus últimos livros, como Nemesis ou Passenger to Frankfurt, porque se tornam muito reflectidos, quase sem acção. Como obra-prima, decidi optar pelo célebre Murder on the Orient Express - não só por narcisismo bloguista - mas porque toca um tema que me deixa sempre "sem palavras": o rapto e o assassínio de uma criança. Embora o desenlace final seja, no mínimo, inquietante (a "justiça" pelas próprias mãos), o enredo é fabuloso. Como se fosse hoje, lembro-me da excitação de ir comprar à Bertrand os livros de bolso desta escritora (na altura, se não estou em erro, publicados por uma editora americana chamada Pocket Books).
Fiquei a saber pela iCreate que agora já posso usar o iPod quando estiver a mergulhar a 5 metros... se tiver dúvidas, clique aqui . Pelo menos, permite resolver um problema bem comum: estar na praia a ouvir música enquanto o iPod vai ficando cheio de areia.
O Expresso do Oriente transportou hoje o seu passageiro nº50.000, às 15:39. Como é um comboio expresso, a viagem foi muito rápida e durou apenas 45 segundos. O bilhete de entrada foi adquirido na Vodafone portuguesa. E assim este leitor ganhou mais umas milhas/kms extras que pode adquirir na nossa Agência Central do Orient Express. Para mais pormenores, é favor contactar a agência referida.
Hoje, no Boxing Day, a vontade não é muita e o passo assemelha-se ao de uma tartaruga... mas a lista de tarefas a fazer não engana ninguém! Fotografia de Joaquim Alves Gaspar, 1968.
Um dia fui convidado para jantar no Porto de Santa Maria, ali para o Guincho, e foi um evento: para lá do maravilhoso prato vegetariano que o restaurante foi obrigado a fazer (e que pela cornucópia de cores fez crescer a água na boca a todos os presentes...), os meus anfitriões perguntaram-me o que estava a ensinar: neste momento, respondi-lhes, estou a ensinar metafísica (tópicos de metafísica). Silêncio embaraçoso, como se eu me dedicasse a qualquer mântica exótica... Mas como nos diz Markus Gabriel no seu último livro (Der Mensch im Mythos (O Homem no Mito), Berlim/Nova Iorque, Walter de Gruyter, 2006), a metafísica é saber ver "o mundo como mundo". Acredito que, por vezes, não seja fácil, pois o mais fácil é esquecermo-nos nele por causa dos milhões de problemas que temos. Só que quando vemos o "mundo como mundo" sentimo-nos livres e tudo se torna mais belo e interessante. Parabéns Markus! A Amazon já te leva aos ombros...
Foi reeditada em Novembro a biografia de Enid Blyton e, como não tinha lido o original datado de 1974, tenho agora a oportunidade de a ler, durante a noite, sem parar. Claro que as biografias têm sempre algo de perturbador: afinal, na biografia, o Hergé colaborou com os nazis belgas e por pouco não foi preso; na biografia, Marguerite Yourcenar transformou a sua companheira numa autêntica escrava e passou muitas horas da sua vida a reconstruir uma imagem "bonita" para a História; na biografia, T.S.Eliot e a sua mulher, numa relação que se pensava cândida, quase enlouqueceram e ele apenas escreveu a sua obra-prima quando estava numa casa de repouso em Genebra. O que vou eu descobrir sobre a Enid Blyton, para lá de já saber que ela se identificava com "o" George, a nossa Zé? Será que devorava crianças ao pequeno-almoço e que era uma fanática da caça à raposa? Duvido, mas certamente não será apenas a candura do "countryside" britânico.
Não é que a SIC se prepara para terminar a minha série televisiva favorita no final deste ano!!!! Frasier, pois claro! Ora, se as minhas contas estão certas, ainda estamos a ver a série 7 das 11 realizadas. Acho que os 39 Emmys que a série recebeu falam por si...
Hoje, para grande surpresa minha, encontrei a primeira revista portuguesa dedicada ao Mac: iCreate. Podem saber mais sobre a revista neste link. Já faz uma antevisão do Leopardo. E eu que ainda me sinto uma pantera, complexada por ainda não ser um tigre...
"In 55 BC, the Roman leader Pompey staged a combat between humans and elephants. Surrounded in the arena, the animals perceived that they had no hope of escape. According to Pliny, they then "entreated the crowd, trying to win its compassion with indescribable gestures, bewailing their plight with a sort of lamentation." The audience, moved to pity and anger by their plight, rose to curse Pompey — feeling, wrote Cicero, that the elephants had a relation of commonality (societas) with the human race.
In 2000 AD, the High Court of Kerala, in India, addressed the plight of circus animals "housed in cramped cages, subjected to fear, hunger, pain, not to mention the undignified way of life they have to live." It found those animals "beings entitled to dignified existence" within the meaning of Article 21 of the Indian Constitution, which protects the right to life with dignity. "If humans are entitled to fundamental rights, why not animals?" the court asked.
We humans share a world and its scarce resources with other intelligent creatures. As the court said, those creatures are capable of dignified existence. It is difficult to know precisely what that means, but it is rather clear what it does not mean: the conditions of the circus animals beaten and housed in filthy cramped cages, the even more horrific conditions endured by chickens, calves, and pigs raised for food in factory farming, and many other comparable conditions of deprivation, suffering, and indignity. The fact that humans act in ways that deny other animals a dignified existence appears to be an issue of justice, and an urgent one.
Indeed, there is no obvious reason why notions of basic justice, entitlement, and law cannot be extended across the species barrier, as the Indian court boldly did.
In some ways, our imaginative sympathy with the suffering of nonhuman animals must be our guide as we try to define a just relation between humans and animals. Sympathy, however, is malleable. It can all too easily be corrupted by our interest in protecting the comforts of a way of life that includes the use of other animals as objects for our own gain and pleasure. That is why we typically need philosophy and its theories of justice. Theories help us to get the best out of our own ethical intuitions, preventing self-serving distortions of our thought. They also help us extend our ethical commitments to new, less familiar cases. It seems plausible to think that we will not approach the question of justice for nonhuman animals well if we do not ask, first, what theory or theories might give us the best guidance.
In my new book, Frontiers of Justice: Disability, Nationality, Species Membership, I consider three urgent problems of justice involving large asymmetries of power: justice for people with disabilities, justice across national boundaries, and justice for nonhuman animals."
Sobre Nussbaum, uma breve apresentação in Martha Nussbaum Cf. ainda o vídeo sobre a autora no programa "Do Belo e da Consolação" Pode-se agora afirmar, sem exagero, que não existe nenhuma teoria ética relevante (do utilitarismo à deontologia) que não defenda o respeito ético pelos animais não-humanos. Fim de um ciclo teórico... em termos práticos, agora é só mesmo uma questão de tempo.
Life on a String, no título inglês do filme Chen Kaige, é uma obra-prima da narrativa. Um músico cego tocando continuamente o seu banjo até que a milésima corda se partisse e ele conseguisse ver finalmente no seu instrumento musical a cura da sua cegueira. Filme que conjuga perfeitamente a esperança e o trágico. Mas quando um de nós contém em si um certo número de cordas, como as sete vidas de um gato... o que fazer quando nos apercebemos que elas se têm vindo a partir? A última será talvez a mais dramática, mas provavelmente a menos importante. E aquelas que a antecederam? O músico desejou ardentemente que as últimas cordas se partissem, até que apenas restasse uma só, a chave do segredo. E nós como devemos agir? Com nobreza, naturalmente...
Há muito tempo atrás todo o mundo tinha perecido num grande dilúvio. O mundo tinha-se tornado num mar pantanoso, cinzento, sem vida. O último homem, de nome Markandeya, totalmente exausto percorria atónito, sem compreender a razão de ser de tanta devastação. Não encontrava sinais de vida e desesperou. Subitamente, sem saber porquê, virou-se e viu no meio das águas uma árvore, na qual se encontrava um bebé com ar feliz e sorridente. A criança subitamente disse-lhe: "Estás muito cansado. Precisas de repousar. Entra no meu corpo." O bebé abriu a boca e um súbito vento arrastou Markandeya para o interior do corpo daquela criança. Aí ele viu um mundo com as suas montanhas e rios, com as pessoas e animais fazendo a sua vida normal. Markandeya viu os oceanos, a terra, o céu infinito. E, assim, Markandeya caminhou durante quase cem anos no interior do corpo daquela criança. Mas, de repente, um vento poderoso arrastou-o e ele foi cuspido da boca da criança para as águas pantanosas. A criança sorriu e disse-lhe: "espero que tenhas tido um bom descanso."
Olhar no Ganges. O nome Ganges deriva directamente da deusa-mãe de Bhixma, Ganga (ela tinha o hábito, um pouco estranho, de afogar os filhos. Bhixma foi o único que escapou...)