sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

A Carícia e a Liberdade

"A mão toma e o espírito compreende. A mão segura a sua presa o espírito cria conceitos para agarrar, compreender e dominar. Não vem a palavra alemã Begriff, "conceito" de greifen, "agarrar", "apanhar"? Begreifen é "com-preender", agarrar pelo pensamento. Begriff soa também, no francês, a griffe (garra) e à violência do griffer (arranhar). Os estóicos ilustravam o conhecimento sábio através de uma imagem célebre, narrada por Cícero:

Excepto o sábio, ninguém sabe o que quer que seja, e Zenão provava-o com um gesto. Mostrava a mão, com os dedos estendidos: "Isto é a representação", dizia ele. Depois dobrava levemente os dedos: "Isto, o assentimento". Seguidamente, com a mão completamente fechada, mostrava o punho, declarando que era a compreensão; foi por isso que deu a esta o nome de katalepsis ("tomada", "tomada de posse", por extensão, "acção de agarrar pela inteligência, compreensão"), que não era usado antes. Aproximava depois a mão esquerda do punho cerrado e apertava-o estreitamente e com força: dizia que era ciência que ninguém possui, excepto o sábio.

Opostamente, um mestre do Talmude inaugurava a sua primeira lição com o gesto seguinte: aproximava a mão esquerda do punho cerrado da mão direita e apertava-o bem com todas as suas forças. Dizia que essa era a sabedoria do imbecil, que crê saber e que pensa segurar o mundo nas malhas da sua rede. Na sua segunda lição, libertava o punho direito da mão esquerda, depois abria progressivamente os dedos, como as pétalas de uma flor que se abre para a vida: "Assim floresce a inteligência", dizia. A mão abria-se por completo, os dedos esticados e prontos para o encontro: "Eis a mão feita para as carícias", dizia. "Esta mão é a do sábio que sabe que não sabe nada, mas que conhece o valor do encontro e da dádiva." Para terminar, cruzava as mãos e dizia: "Eis o pássaro da liberdade".
A dança indiana conservou qualquer coisa do mestre talmúdico. De igual modo, o botão do lótus indica o pensamento ainda balbuciante; depois entreabre-se: o espírito liberta-se e descobre já a cor de um céu que faz sinal ao Infinito."

Ouaknin, Les Dix Mandements, Paris, Seuil, 1999, pp.250-251;trad.port. de Gabriela Corte-Real, CL, 2001, pp.217-218.

1 comentário:

MRF disse...

Cada parte do corpo tem um arquivo de movimentos. aqui abre-se uma página belíssima do arquivo das mãos.
As tuas referências bibiográficas são sempre novas para mim. aqui venho sempre à descoberta. obrigada.