sábado, 26 de fevereiro de 2005

A Rosa de Ninguém

"Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direcção
a ti.

Um Nada
fomos, somos, continuaremos
a ser, florescendo:
a rosa do Nada, a
de Ninguém.

Com
o estilete claro-de-alma,
o estame ermo-do-céu,
a corola vermelha
da púrpurea palavra que cantámos
sobre, oh sobre
o espinho."

"Niemand knetet uns wieder aus Erde und Lehm,
niemand bespricht unsern Staub.
Niemand.

Gelobt seist du, Niemand.
Dir zulieb wollen
wir blühn.
Dir
entgegen.

Ein Nichts
waren wir, sind wir, werden
wir bleiben, blühend:
die Nichts-, die
Niemandsrose.

Mit
dem Griffel seelenhell,
dem Staubfaden himmelswüst,
der Krone rot
vom Purpurwort, das wir sangen
über, o über
dem Dorn."

Paul Celan, "Salmo" in Sete Rosas Mais Tarde. Antologia Poética, edição bilingue, trad.port. João Barrento e Y.K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 1996 (2ªedição).

3 comentários:

MRF disse...

Impiedoso, belíssimo!

m.n. disse...

João Barrento é um dos "ensaístas" com quem aprendi rigor,atenção ou compromisso e seu amplo interesse cultural tem-me interessado bastante-a tradução desta literatura que ele tão bem conhece,neste caso, é fluida e icónica ao mesmo tempo...como a procura,o caminho que refazemos e as pegadas que deixamos uns aos outros na paisagem.felizes dos que pestanejando acreditaram vislimbrar a rosa, no limiar...ah, como desejo esse momento piedoso...onde a beleza não há, porque não existe a palavra...ah, poder eu aspirar 1 segundo dessa piedade amorosa da Rosa...farejo como posso...e aprendo com alguns.a piedade não tem adjectivos,É...

Anónimo disse...

vc tem notícia de algume que traduziu o livro niemandsrose de celan? estou atrás do poema dele: anábase..
obrigado
carlos
carlossilveira@paulo.com.br